terça-feira, 13 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A ORQUÍDEA CATTLEYA INTERMEDIA

Tempo de voltar nossas atenções para outras coisas, que não a política, em nosso país. Afinal, há tanto mais a tratar, tanta coisa boa a celebrar. Pois então, vamos focar numa coisa que (quase) todos adoram: plantas tropicais, flores. Nesta série de postagens, o assunto passa a ser as plantas do Jardim Fitogeográfico, que abriga nossa coleção de espécies botânicas, em Itaipava, Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro.

Creio que quase todos conhecem a história do Jardim Fitogeográfico. Eu o chamava, há algum tempo, de Jardins do Templo Fitogeográfico. De um tempo para cá, resolvi suprimir o “templo”, por entender que, apesar de encarar meu jardim daquela mesma forma, como relatei na postagem de 16 de fevereiro de 2012 - (http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), ou seja, quase como algo divino, até metafísico, não queria misturar as coisas. Religião é religião, cada um tem a sua, ou não tem. Então, vamos chamar a coleção de Jardim Fitogeográfico.

As razões para o FITOGEOGRÁFICO vocês já conhecem, pois referi longamente, naquela postagem: Fitogeografia é a área da ciência que sintetiza minha linha de estudos, tratando das vegetações na natureza. Ou seja, as plantas da coleção formam ambientes alusivos às tipologias de vegetação observadas no país, que eu tanto investigo e que resultaram no livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL – UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015), de minha autoria. Sobre esta obra, você poderá consultar em meu blog EXPEDIÇÕES FITOGEOGRÁFICAS, que é interligado a este.

Aqui no Jardim Fitogeográfico, as plantas da coleção interagem entre si e o meio, na forma de ambientes que imitam vegetações naturais. Tanto nas áreas abertas do Jardim, onde estão as plantas de locais ensolarados (restingas, campos rupestres etc.), quanto na floresta que foi recuperada, desde 2007, muita coisa interessante pude aprender com essas plantas, no tocante a suas ecologias e seus “hábitos” de crescimento e colonização dos ambientes. No meu livro, chamo isso de “desafio da horticultura” e isso me ajudou bastante, em minhas reflexões.

Cattleya intermedia em cultivo no Jardim Fitogeográfico

Muito bem, vamos então à primeira planta escolhida para a série, uma orquídea linda, que ocorre naturalmente (ou ao menos ocorria!), entre o norte do Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul: Cattleya intermedia. O grande naturalista Frederico Carlos Hoehne, que foi um dos pilares da orquidologia brasileira e viajou intensamente pelo Brasil, na primeira metade do Século XX, lançou importante olhar sobre as populações naturais de Cattleya intermedia, que se espalhavam em grande parte do litoral do Sudeste e Sul.

Cattleya intermedia crescendo sobre muro de pedra, 
no Jardim Fitogeográfico

Cattleya intermedia cresce principalmente de forma epifítica, ou seja, agarrada aos troncos de grandes árvores, ou formando touceiras quase suspensas por “ninhos” de raízes, nas arvoretas ramificadas e arredondadas das restingas litorâneas. Hoehne chamou atenção, em seu célebre livro Iconografia de Orquidáceas do Brasil, para largas populações desta orquídea, que habitavam diretamente a superfície dos matacões de rocha granítica, ao longo do litoral de Santa Catarina, destaque para a Ilha de Santa Catarina, onde está situada a cidade de Florianópolis. Suas fotos davam conta de imensas rochas roladas, com o topo recoberto de Cattleya intermedia. Quando floridas, essas plantas atraíam o olhar cobiçoso dos coletores, que trataram de depenar impiedosamente essas plantas, para vender a colecionadores, ou comerciantes de plantas.

Excursões pelo litoral catarinense ainda permitem a descoberta de esplêndidas populações naturais desta orquídea, principalmente sobre velhas figueiras, algumas protegidas em meio a terrenos alagadiços e impenetráveis. Poucas são as plantas divisadas sobre rochas e nenhuma população densa, como aquelas de Hoehne, pode ser mais encontrada.


Cattleya intermedia florescendo em seu habitat natural, 
na Lagoa dos Patos - Rio Grande do Sul, seu limite de ocorrência austral

No Jardim Fitogeográfico, Cattleya intermedia é mantida na forma de vasos pendentes, na estufa de plantas, e também de forma epifítica, modo com que ela mais se dá bem, por lhe ser possível espichar suas longas raízes, nos troncos e galhos de árvores situadas em locais protegidos do vento seco de inverno da Região Serrana.



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