terça-feira, 4 de agosto de 2015

UM TANNAT DA SERRA DA CANASTRA – MG – ENFRENTA SEU PRIMO GAÚCHO: RELENA 2013 RESERVA x MIOLO 2013 RESERVA

Quando estive na Serra da Canastra, Minas Gerais, em abril de 2015, para mais uma memorável aventura de conhecimento de sua natureza singular (ver postagem do blog Expedição Fitogeográfica: http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br/2015/06/uma-nova-visita-serra-da-canastra-maio.html ), fui agraciado com uma surpresa. Meu guia e amigo Elossandro Coelho, um apaixonado por tudo que a região tem a oferecer, me presenteou com uma garrafa de vinho. Calma, não era um simples presente de fornecedor a cliente, daquele tipo de garrafa de vinho que a gente compra, coloca numa caixinha, com lacinho de fita e cartão de agradecimento. Não, não era nada disso:

- Trouxe aqui um vinho aqui da Serra da Canastra, de São João Batista do Glória, para você experimentar e dizer se gosta, disse-me Elossandro. Fiquei surpreso, não posso negar. Vinho, na Serra da Canastra? Vinhos, em Minas Gerais, já me deixariam um tanto descrente, talvez pelo simples fato de que não são e nem nunca foram tradição deste estado. Na Serra da Canastra, então... Que dizer? Quem conhece a região entenderá: lugar paradisíaco, de inigualáveis belezas naturais, nascente do rio São Francisco – o Velho Chico – e terra de gente simples, com aquele jeitinho tipicamente mineiro. Jamais esperaria encontrar uma vinícola, na Serra da Canastra, tradição usualmente ligada a imigrantes europeus e principalmente arraigada aos estados do sul.

Viajantes do Século XIX já diziam ter encontrado parreiras de uvas na região, assim como garrafas de vinho produzido por seus primeiros habitantes. Mas, isso se perdera no passado e seria mais que esperado que eu me surpreendesse com um... Vinho da Serra da Canastra, em pleno Século XXI. Meu amigo sabia disso e se adiantou em explicar: Tratava-se de uma pequena vinícola mantida por certa pessoa de fora da região, uma tentativa de introduzir a vinicultura na região, uma experiência levada a sério, segundo ele.

Sabedor de meu gosto por vinhos e, principalmente, pelas condições ecológicas em que eles são criados – terroir –, Elossandro resolveu me oferecer o presente, esperançoso de que eu me manifestasse sobre os resultados. Muito bem! Por que não? Peguei a garrafa do Relena Tannat – 2013 – Reserva e indaguei: - Posso levar e experimentar em casa? E mais, posso ser sincero, ao relatar os resultados? Diante da concordância com essas “rígidas” condições, trouxe a valiosa garrafa canastrense e, passados alguns meses, em condições apropriadas, realizei o teste.

A Serra da Canastra é uma grande superfície de cimeira, um platô elevado a mais de 1.200m, que representa importante divisor de águas e climas. Ela se estende aproximadamente de sudeste a noroeste, possuindo em sua área mais central ao menos duas cristas semiparalelas, que barram as massas de ar que advêm do planalto paulista, no qual domina a bacia do rio Grande, que corre ao Paraná. Para além dessa influência determinante, a norte-nordeste, estendem-se os domínios do Cerrado, no Triângulo Mineiro. Em seus limites mais a sudeste, nascem as águas do Velho Chico, partindo do topo da Canastra, para se derramarem pujantes na famosa cachoeira da Casca D’Anta.

Pois é naquela face voltada ao rio Grande, na vertente do chamado Chapadão da Babilônia, uma das duas cristas paralelas da Canastra, que se encontra situada a localidade de São João Batista do Glória, com altitudes da ordem dos 700-800m, onde se instalou a vinícola Relena, com parreirais pequenos e, segundo Elossandro, muito bem conduzidos. Há que se considerar que essa climatologia deve se prestar bem ao cultivo de uvas vinícolas, em função do efeito climático da barreira da Canastra e das temperaturas relativamente frias do inverno.



Acima - Serra da Canastra, um novo terroir em Minas Gerais?
Abaixo - Cachoeira Casca D'Anta, nascente do rio São Francisco, despencando da Serra da Canastra


Nossa experiência com o Tannat 2013 Reserva da Relena não poderia ser de forma mais instigante: Qual seriam as referências para um vinho produzido em pleno Brasil Central, sem contar ele com qualquer outro vinho notável, produzido na região? Estávamos falando de vinhos finos, descartando-se, obrigatoriamente, experiências menos sofisticadas, tais como aquelas que já ocorreram nalgumas partes de São Paulo. As uvas Tannat são provenientes do sul da França, mas ficaram especialmente famosas, no Novo Mundo, ao se consagrarem como típicas do Cone Sul, sendo o Uruguay, nos dias atuais, a pátria desses tintos poderosos.

Vinhos Tannat costumam ser potentes e encorpados, sendo seus taninos expressivos sua principal e desejável característica. Considerando-se a natureza da dieta uruguaia, na qual abundam carnes de primeira linha, destacando-se seus contrafilés muito gordos e suas ovelhas, explica-se a razão do forte investimento de suas vinícolas em bons Tannats, para fazer frente a tanta proteína e gordura. Rótulos célebres, como Bouza, Pisano, Don Pascual e Stagnari fizeram a fama dos uruguaios e se firmaram como itens obrigatórios, nas melhores caves. Mas, seria justo ter como referência ícones deste calibre, ao se avaliar o Tannat da Serra da Canastra?

Bem, devemos ter em conta que também o Brasil vem produzindo Tannats de boa qualidade, especialmente na chamada região da Campanha Gaúcha, bem lá na fronteira entre Rio Grande do Sul e Uruguai, onde alguns platôs tabuliformes, velhos planaltos de arenito, sediam vinícolas de porte, entre elas a célebre Miolo, que tem firmado internacionalmente o nome da vinicultura gaúcha. Aí estava a solução, para nosso teste comparativo: justapor dois vinhos brasileiros Tannat, preferencialmente produzidos no mesmo ano e sob processos similares.

Luiz Tomás Graeff nos trouxe do Rio Grande do Sul uma garrafa do Miolo Tannat 2013 Reserva. Estava lançado o desafio: um teste comparativo entre um vinho reconhecido no mercado, que encontraria consumidores em qualquer parte e que poucos recusariam mérito, e nosso novo Tannat canastrense, de São João Batista do Glória. Reunimo-nos em três apreciadores de bons vinhos, cada um com seus conceitos particulares e, sem dúvida, bem acostumados a apreciar juntos os mais diversos vinhos, sempre sustentando seus pontos de vista: Rosnéri (Méri) Copetti, Philip Shores e eu, sendo auxiliados pela cuidadosa Bárbara Graeff, uma abstêmia convicta, mas excelente organizadora.


Acima - Bebendo vinhos e opinando: Méri, Orlando e Philip
Abaixo - Os vinhos testados, juntamente com o queijo canastra e o culatello




O teste não tinha objetivos meramente técnicos, haja vista nenhum de nós ser profissional e sendo todos simples amantes de bons vinhos, que usualmente bebemos com a alma, não apenas com nossas mal treinadas papilas gustativas. Os dois vinhos foram abertos sem nossa presença, sendo numerados, assim como as duas taças que cada um de nós recebeu, para realizar a degustação. Vinho 1 e vinho 2... Era tudo que sabíamos sobre eles, ao recebê-los em nossa mesa.

Como não poderia deixar de ser, os dois vinhos também passariam por duas harmonizações importantes: uma delas, com caráter carregado de simbolismo, seria realizada acompanhada de queijo Canastra que eu trouxera de São Roque de Minas, fabricado pelo lendário Sr. Zé Mário (ou seja, o melhor queijo do Brasil – um queijo canastra), juntamente com um perfeito culatello (coração de pernil), irmão mais perfeito do presunto de Parma, fabricado no Rio Grande do Sul, no Planalto Médio; a segunda harmonização, como não poderia deixar de ser, seriam duas lindas e suculentas peças de fraldinha e alcatra, assadas na brasa.

Cerca de uma hora separaria esses dois testes, tendo sido novamente degustados, bem mais tarde, à noite, após boas horas abertos e repousando em suas próprias garrafas. Anotamos e debatemos alguns critérios relacionáveis à variedade. Nossa primeira impressão, sem sabermos o que bebíamos, mas posteriormente informados, foi a seguinte:


Taninos: No primeiro momento, o Relena passou aos meus dois comensais a impressão de superioridade, enquanto eu atribuía ao Miolo maior força, por conta de um inequívoco ataque, talvez em face de certa acidez. Contudo, já na segunda prova, na hora de enfrentar a carne, minha impressão modificara um pouco e já se expressavam com pouco mais de potência no Relena, embora tenha eu atribuído “leveza”.


Final: Méri não apreciou muito o final do Miolo, preferindo o Relena, enquanto Philip atribuiu uma permanência pouco maior ao vinho gaúcho, o que viria ao encontro de minhas impressões, que reconheciam, até a segunda prova, longo final ao Miolo, embora o Relena viesse avançando, até ali.


Frutas: Tannats são de caráter usualmente frutado e ambos não escondiam isso. Talvez, o maior ataque por mim atribuído ao Miolo viesse exatamente do cruzamento de suas frutas ácidas, ainda muito presentes, com seus taninos. Méri reconheceu frutas muito fortes no gaúcho, por ser caráter que ela não costuma apreciar tanto, nos vinhos brasileiros, de forma geral. Minha comensal valoriza bastante a maturidade dos vinhos italianos, especialmente toscanos de guarda, supertoscanos e franceses Bordeaux, muito embora tenha grande paixão pelos Tannats uruguaios, advindos dos solos férteis de Montevideo ou Salto. Philip “enxergou” perfumes fortes no Miolo, que não escondia sua relativa imaturidade na garrafa.


Corpo: Todos foram unânimes em não atribuir muita expressão aos corpos de ambos os tintos, por ocasião de sua abertura, coisa que não se alterou significativamente, mesmo uma hora após abertos. O Relena revelava mais espuma que o Miolo.


Coloração: Uma coloração mais intensa foi logo notada no Miolo, embora se tornasse um pouco difícil separá-los, quando justapostos. Cruzada com os corpos de ambos, percebia-se menor densidade do que aquela usualmente notada, por exemplo, nos uruguaios, assim como em outros Tannats da Campanha (RS). Méri e Philip observaram que o Miolo havia intensificado seu corpo, na segunda prova, resultando lágrimas mais duradouras, enquanto saboreávamos as deliciosas carnes, vindas do braseiro escaldante.


Harmonização: Méri não teve dúvidas em atribuir melhor harmonização do Relena com os queijos, mormente o Canastra (lembrando que não sabíamos de suas identidades, até então). Sua sensibilidade para a complexidade dos vinhos, tanto quanto sua percepção de harmonização, sempre se revelou superior à minha, o que a torna mais apta para esta avaliação. Ao saborear o Miolo, juntamente com as fatias de carne mal passada, achei-o mais efetivo, certamente por conta de seu ataque e permanência na boca. Mas, devo admitir: o Relena não fez feio, muito pelo contrário!


Mas, seria a terceira degustação, realizada bem mais tarde, algumas horas após abertos, aquela que efetivamente mostraria a qualidade dos dois vinhos: Já conhecendo suas identidades, verificamos que ambos haviam melhorado sobremaneira, tornando-se muito mais elegantes e arredondados. Isso mostrava, em definitivo, que o melhor momento dos Tannats brasileiros ainda se dá muito tempo após abertos. Sua aspereza, ou sua dureza, são consideravelmente abrandadas pelo passar das horas, enquanto suas frutas encontram o oxigênio livre do ar e seu álcool se evapora um pouco, liberando suas qualidades adormecidas.

Ambos tinham então melhorado seus taninos. Porém, para minha surpresa, o Relena os revelava muito superiores aos do Miolo, que ainda conservava frutas e acidez excessivas. Não havia mais dúvidas: o Relena se mostrava superior, em diversos aspectos, ao Miolo. Provavelmente, o clima fortemente estacional da Serra da Canastra seja mais adequado do que o da Campanha, ou, pelo menos, na safra em questão (2013), as uvas do Brasil Central haviam experimentado melhores condições do que aquelas do extremo sul do Rio Grande. De todo modo, ambos ainda precisam ser mais trabalhados, até que possam ser comparados com seus primos uruguaios.

Ficamos felizes de ver abrir-se o horizonte do Brasil Central às possibilidades enológicas de qualidade. Quanto a mim, um amante incondicional da Serra da Canastra, me enchi de gáudio, por ver seu Tannat brilhar e, mais ainda, quando acompanhado do célebre queijo Canastra do Sr. Zé Mário, de São Roque de Minas.

Todos achamos que o rótulo do Relena precisa melhorar muito, para se tornar proporcional à qualidade de seu conteúdo. Rolha e lacre, igualmente, ainda estão longe do ideal, de modo a enfrentar o mercado que, muito seguramente, o aguardam em futuro muito próximo.


Um comentário:

  1. Que surpresa boa Orlando, ao pesquisar sobre o Relena, que degustaremos em breve em nosso passeio para a Serra da Canastra, encontrar sua apreciação junto à de Meri em um blog tão elegante! Obrigada!

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