quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entre Petrópolis e São Paulo

          No início de 2005, ou seja, seis anos atrás, o jornal petropolitano A Tribuna de Petrópolis publicou um texto meu, que falava sobre um tema bastante atual, naquela época: As enchentes e desastres naturais, na cidade. Resgatei-o, em meu computador, e notei uma coisa curiosa: Ele continua bastante atual, nos dias de hoje! Resolvi, então, transcrevê-lo neste Blog, para provocar o que sempre tento – A reflexão sobre os temas corriqueiros de nossa sociedade. Creio que sua leitura será capaz de levantar algumas discussões relevantes sobre esse grave problema de Petrópolis, que é a sua vulnerabilidade aos fenômenos naturais, especialmente as chuvas. Eis o texto de 2005:

           O clima das regiões, conhecido como macroclima, sofre modificações cíclicas que somente podem ser avaliadas pela observação de dados meteorológicos, medidos por estações, durante dezenas de anos contínuos.  Quando essas modificações ocorrem e culminam em episódios marcantes de secas, chuvas e ventos, o ser humano tende a interpretá-las de forma conclusiva e catastrófica. É quando ouvimos opiniões do tipo: “O clima está mudando!” Essas conclusões costumam vir acompanhadas de idéias formadas sobre as possíveis causas dessas mudanças, usualmente associadas aos desmatamentos e alterações ocasionadas pelo homem. A verdade, porém, é que essas alterações macroclimáticas são predominantemente de ordem natural e a única influência humana sobre os macroclimas, hoje, nada pequena por sinal, tem sido a aceleração de um desses processos naturais – o aquecimento global – que já vinha ocorrendo, de forma espontânea. O homem o tem tornado mais rápido, através da imensa emissão dos chamados gases de efeito-estufa, em especial, o gás carbônico (CO2), proveniente da queima de petróleo e das queimadas .
           Os climas locais, chamados mesoclimas ou topoclimas (jamais microclimas, estes significando, sim, os climas da camada superficial do solo), relacionados ao relevo e geografia de pequenas regiões, podem sofrer alguma influência das atividades do ser humano. As maiores influências humanas sobre os climas locais são determinadas pelo aumento das cidades e das áreas abertas. As cidades, em especial, com suas casas, ruas e calçadas, formam bolhas de calor que alteram os ventos e as chuvas, podendo fazê-los escassear ou, em caso inverso, abaterem-se com maior vigor e de forma concentrada sobre determinados locais.
           Quando nos deparamos, em Petrópolis, com estações muito chuvosas, aparentemente anormais, como é o caso do verão de 2004/2005, estamos lidando, em verdade, com uma variação macroclimática natural, segundo consta, determinada por um acentuado fenômeno el niño. Quando vemos ocorrer uma tromba d’água tão impressionante como a ocorrida na noite de terça-feira (18/01) para quarta-feira, quando Itaipava enfrentou sua pior enchente, em mais de vinte anos, temos sim um consórcio de influências humanas em ação. Porém, mesmo que se admita como influenciada pelo ser humano a brutal concentração de chuvas (de 130mm a mais de 150mm) ocorrida em poucas horas, entre o Vale do Jacó, o Bonfim e Vale do Caititu, terá sido esta a menor causa de malefícios determinada pelo homem a si mesmo neste evento.
           Arremedando pateticamente a Cidade de São Paulo, maior metrópole da América do Sul, Petrópolis viu alguns de seus cidadãos mergulharem na torrente impiedosa de lama do rio Piabanha, vivendo cenas semelhantes às que vemos, nos telejornais, quando caudais incontroláveis arrastam paulistanos e seus patrimônios, durante pesadas chuvas de verão.  O que ocorreu em Itaipava, naquela fatídica noite, poderia ter ocorrido mais acima ou mais abaixo, ao longo do Piabanha, dependendo de onde se fizesse despencar tamanho temporal. Mas o desencontro entre obras de dragagem, destituídas de planejamento, no Piabanha, e o crescimento descontrolado da malha urbana, sobre encostas e margens de rios, já determinou que conseguíssemos nos parecer com a Grande São Paulo. Os azarados, desta vez, foram os habitantes de Itaipava, como haviam sido os do Quitandinha e Centro, ainda em dezembro de 2004. Quem haverão de ser os próximos?
           É claro que ninguém torce pelo pior. Mas, não temos feito o melhor por Petrópolis: O Poder Público empurra com a barriga eleitoreira os problemas de ocupação desordenada de encostas e margens de rios, havendo casos lamentáveis de decisões judiciais (no momento, providencialmente esquecidas) que homologam essa favelização, justificando-as como soluções habitacionais; A população, por seu lado, se atira à ocupação de todo e qualquer espaço natural disponível, no intento de suprir sua sanha desenvolvimentista. Tudo vale para cada um de nós ganhar mais, ser dono de mais. Pouco importa quem está encosta ou rio abaixo. Nesse estado de coisas, podemos nos preparar para imitar o que de ruim seremos capazes da gigantesca Cidade de São Paulo, por que o que ela tem de bom não parecemos estar dispostos a realizar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

VERANICO – A SECA DO ALTO VERÃO NO SUDESTE

          Temos enfrentado muitas surpresas climáticas e meteorológicas, não somente no Rio de Janeiro, mas em todo o país, quiçá no inteiro Planeta. Porém, deve ser lembrado, oportunamente, que o Clima tem dessas coisas mesmo. Ainda estamos discutindo, acaloradamente, nos meios acadêmicos e para-acadêmicos, se os duros eventos meteorológicos ocorridos em janeiro, na Região Serrana do Rio, representaram realmente um fato sem precedentes, ao menos na História do Brasil, que já remete a 510 anos. Mas, enquanto se debate a recorrência de chuvas da ordem de 200mm, em período de cerca de duas horas, como parece ter sido o caso na Serra Fluminense, algo realmente extraordinário, devemos deixar claro um aspecto fundamental, em climatologia: O Clima de determinadas regiões possui padrões previsíveis, mesmo que submetidos às naturais flutuações, que o fazem variar, de ano para ano, de década para década e mesmo de século para século. Flutuações são essas variações que percebemos, com nosso olhar pessoal, quando temos um verão mais quente que outro, com mais ou menos chuva, ou mesmo mais ou menos frio, no inverno. São diferentes – e muito – das apregoadas mudanças climáticas, que pressupõem diferenciações profundas nos padrões conhecidos e que podem ou não estar ocorrendo, em nosso Planeta.
          Pois falo aqui, agora, de um fenômeno que tem assustado muitas pessoas, nestes últimos dias, que parece para alguns um tipo de coisa extraordinária e, na visão de outros poucos, até mesmo um sinal alarmante das mudanças climáticas em curso. Refiro-me à prolongada seca, acompanhada de forte calor, que tem se abatido sobre nosso Estado, ocasionando incêndios florestais, tais como o do Parque Ecológico da Prainha, além de outros urbanos, como o que destruiu por completo alguns barracões de escolas, na Cidade do Samba, Zona Portuária do Rio. Trata-se de um padrão bastante previsível, na climatologia fluminense, ocorrendo com freqüência considerável, entre os dias 15 de janeiro e 15 de fevereiro, todos os anos. Chama-se VERANICO e sua ausência, em determinados anos, esta sim, pode ser considerada algo excepcional. Porém, tendo se sucedido às chuvas descomunais e destruidoras de12 de janeiro, não podiam deixar de ser observadas com certo susto, pelos não iniciados nas ciências naturais.
          O Veranico é um domínio ocasional de altas pressões atmosféricas, quando predominam ventos descendentes, empurrando ar seco contra o solo, dificultando assim a ascensão de massas úmidas e a conseqüente formação de nuvens – que produzem as chuvas. Nesta época do ano, situamo-nos na retaguarda do sistema equatorial-amazônico que, encontrando-se com as massas de ar do Atlântico Sul, forma um corredor de umidade conhecido como Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). A ZCAS é exatamente aquela que, dias atrás, encontrava-se sobre o Sudeste, causando as chuvas que atormentaram a população do RJ, SP, MG e ES. A ZCAS e que se deslocou agora para a Região Sul deixando-nos sob a forte seca que ora enfrentamos, acompanhada de intenso calor, por encontrarmo-nos exatamente no Alto Verão. O Veranico é normal e não deve assustar ninguém. Daqui a alguns dias, a ZCAS se enfraquecerá, enquanto as chuvas do final do verão – as famosas águas de março – fecharão a estação quente de 2010/2011.
          O clima sofre suas flutuações, ano após ano, mas seus padrões ainda permanecem os mesmos, a se considerar os registros existentes, desde o Século XIX, mesmo tendo evoluído bastante a metodologia de medições e previsões. Mesmo que o veranico nos cause certos desconfortos, assim como as chuvas, quando em exagero, temos que nos curvar, humildemente, diante da grandiosidade da Natureza, que dá um pouco de cada coisa, em doses pré-estabelecidas, a cada ser que habita o Planeta. Temos que admitir que não estamos sozinhos na Barca Terrestre e que existem outras formas de vida, que necessitam de quantidades específicas de chuvas, secas, ventos e radiação solar, por mais que essas doses alheias, por vezes, nos incomodem um pouco. Podemos ter absoluta certeza de que, neste exato instante, enquanto nos esbaforimos, desagradados pelo calor intenso e falta de chuvas, outros habitantes do Planeta comemoram sua dose certa, que lhes propiciará reprodução, crescimento e sua necessária perpetuação.
          Deveríamos sim adequar nossas ambições de dominação sobre a biosfera às medidas que efetivamente a Natureza nos condicionou crescer. Não podemos continuar proliferando, desmesuradamente, ocupando todo e qualquer espaço existente sobre a Terra, e desejando ainda que não sejamos atropelados por torrentes d’água, terremotos, incêndios e furacões, que sempre existiram, mas que nos passavam ao largo, em tempos de menor população humana. É hora de darmos uma parada para pensar, olhando as flores e bichos que nos cercam, entendendo que o momento agora é deles. Precisamos nos deter, diante da linha, aguardando que o trem da Natureza passe, com sua força descomunal, para podermos então, depois do último vagão, seguir nosso caminho, com toda calma.



A orquídea Cattleya bicolor floresce nas matas de Petrópolis, no exato momento em que a região se submete aos mais severos momentos de seca, no veranico do Alto Verão. A diversidade obriga alguns a tolerar condições duras para si, enquanto outros usufruem de seus instantes ótimos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Búzios – Dos anos Setenta à Praga dos Navios

          Do início a meados da década de 1970, realizei diversas viagens de mergulho a Búzios, no Litoral Norte Fluminense, juntamente com meu amigo Flávio Coutinho, para mergulhar em paraísos como a Enseada da Ferradura, Forno e Focas. Saíamos de Cabo Frio, onde ficávamos acampados, pegando um velho ônibus que, através de estradinhas poeirentas, nos largava no meio do nada, próximo a uma velha porteirinha de fazenda, lembro-me muito bem, cheia de espadas-de-são-jorge, aquelas plantinhas resistentes, que crescem em locais secos, tais como este “ponto de ônibus”. Pouca coisa se via, ao redor deste local, do qual caminhávamos um bocado, até chegarmos ao nosso objetivo tão desejado: A Enseada da Ferradura. Sim, este isolado ponto de ônibus dos anos setenta nada mais era do que aquele posto de gasolina que fica hoje situado no entroncamento entre a pista dupla do Centro de Búzios e a saída de quem retorna da Armação – Tudo isso hoje em meio à densa malha urbana do movimentado balneário.
          Não me arvoro de nenhum concorrente de Brigitte Bardot, na primazia da descoberta da Armação dos Búzios. Mas, já me sinto um tipo de Forrest Gump, aquele personagem do cinema, vivido por Tom Hanks, que passa quase imutável, através de momentos marcantes da história, sempre com a mesma cara, amealhando lendas de vida, para serem contadas. Bem, ao contrário do inesquecível Forrest, acabei amadurecendo um pouco – para não falar em velhice! – e minha figura mudou bastante, desde então. Mas, infelizmente, mudou Búzios também, sobremaneira. Naquela doce época, mergulhávamos o dia inteiro, nos belos costões da Ferradura e suas vizinhas, assávamos nossos badejos nas pedras, à sombra de magníficas árvores das matas que cercavam as deslumbrantes enseadas protegidas. Depois, caminhávamos na florestinha baixa e biodiversa das montanhas, de praia em praia, até chegarmos à Armação, onde aguardávamos a hora de pegar o ônibus, de volta a Cabo Frio. Sentados à beira do cais, espiávamos os peixes-agulha volteando nas águas transparentes, entre barquinhos que balançavam, ao sabor das marés.
          Como Forrest Gump, eu poderia agora simplesmente dizer: ...And that’s all I have to say about Búzios! Mas, não é tudo o que tenho a dizer sobre essa outrora aldeia dos sonhos, lançada aos olhos do Mundo, nos anos de 1960, pela também então estonteante Brigitte Bardot. Cresci e ela também. Coisa de uns dez anos depois, no começo dos anos de 1980, voltei a Búzios e me lancei alegre às águas da Ferradura, já então com muitas casas construídas, ao redor, com minha máscara e snorkel, pronto para rever meus badejos, marimbás e outros peixes, desta vez, sem a sanha de arpoá-los e devorá-los, mas tão somente para admirá-los. Lembram-se dos famigerados saquinhos de leite, que eram as embalagens utilizadas, há muitos anos, em vez das atuais caixinhas? Pois eram abundantes, debaixo d’água, no lugar de meus queridos peixes. Balouçavam nojentos, já meio esverdeados pelas algas, como bailarinas diabólicas e, o que era pior, em meio às águas já bem turvadas pelos esgotos e sedimentos do “progresso”da Armação dos Búzios.
          Ainda voltei a viver agradáveis momentos, em Búzios, bem diferentes daqueles dos 1970s, desta vez, embalado pela praia simplesmente, com muito frescobol e sol, junto com uma galera de bons amigos, entre os quais poderia destacar Carlos E. Viana Cardoso – Cadu – e o irmão Sérgio Burle Marx Smith, conhecido pelos demais como o Inglês. O centro das atenções era Geribá, ainda que derivássemos, com toda frequência, para Tartaruga e, é claro, a minúscula e deslumbrante Azeda, com a Azedinha ao lado. Muitos namoros, paixões até, na Búzios dos 1980s. Chez Michou, Satyricon, Le Cheval Blanc... A noite passava a ser importante, nessa nova fase do Forrest Gump Tupiniquim. Mas, já percebíamos como a bucólica aldeia se ia transformando num turbilhão, numa mania que destruía suas matinhas tão singulares e sujava irreversivelmente suas belas praias.
          A mais destruidora onda que se poderia abater sobre a cidade – agora não mais uma aldeia – vem sendo os navios de cruzeiro que, no verão, aportam em dois a quatro por dia, desembarcando entre 3.000 e 5.000 pessoas na Orla Bardot. Um grande equívoco pseudo-desenvolvimentista, permitido por políticos inescrupulosos, que imaginavam nesta invasão descontrolada, que satura as ruas e a parca infra-estrutura de Búzios, um inigualável aporte de dinheiro para os cofres locais. Sim, isso ficou claro, na simples entrevista aos comerciantes da cidade, que se mostram decepcionados com o baixo nível de consumo dos navegantes da Classe C, que se divertem a valer, sem deixar de retornar aos barcos, onde têm suas refeições já incluídas nos pacotes turísticos. Além disso, o comércio tradicionalmente elitista de Búzios parece não agradar ao perfil desses visitantes, com suas grifes e marcas bem mais caras do que imaginavam os frequentadores de shoppings da Barra da Tijuca ou Calçadão de Madureira.
          Mas, Búzios será sempre Búzios, com a Brigitte Bardot eternizada em bronze, assediada por milhares de turistas, todos os dias, em busca de uma foto para registrar o momento. Será decididamente difícil aniquilar por completo a beleza do lugar, por mais que seus políticos tentem, juntamente com empresários ávidos por lucros ignominiosos, fundamentados na sujeira e no fedor constante que os esgotos – ou sua ausência – infligiram ao lugar. Em visita à Velha Aldeia da Armação, coisa de uns dias atrás, descobri a solução para ter de volta um pouquinho da Búzios de outrora. Basta acordar cedo, descer do Morro do Humaitá e simplesmente caminhar pela Orla, dando um mergulhinho providencial na Azedinha, antes da chegada de dezenas de taxis aquáticos, que descarregarão mais tarde, multidões barulhentas que por lá deixarão seu lixo inevitável. Nesta hora, então, volta-se para o Alto do Humaitá, sur mer, de mãos dadas com Brigitte Bardot, cuidando para não passar perto de algum espelho, para não ver que o velho Forrest Gump mudou bastante, desde aqueles tempos, mas, apenas fisicamente. E... Isso é tudo o que tenho a dizer sobre Armação dos Búzios.


Acima - Vista do Alto do Humaitá, sobre a Enseada da Armação, em Búzios
Abaixo - Pescador chega com o resultado da madrugada, no Cais da Armação


Abaixo - O embate desigual das tradições de Búzios com a invasão dos cruzeiros, que aportam milhares de visitantes por dia, impactando a infra-estrutura local.


domingo, 30 de janeiro de 2011

Nathan e as Orquídeas

        Neste sábado, dia 29 de janeiro de 2011, minha amiga Leda Maldonado, conhecida profissional da área paisagística de Itaipava e Petrópolis, me apresentou o jovem Nathan Miranda Gazineu David, de 17 anos, trazendo-o à minha casa, com o objetivo de mostrar a ele minha coleção de plantas. Leda me falou do rapaz, afirmando que se tratava de um “novo Orlando, trinta e cinco anos depois”. Ela queria referir, com isso, minha história de vida, relacionada às ciências naturais, que passara por situações similares, não somente na escolha dos gostos do jovem Nathan, semelhantes aos meus – principalmente orquídeas – mas também pela forma como ele hoje busca conhecer pessoas notoriamente ligadas ao meio ambiente, às plantas. Tínhamos uma tarde excepcionalmente quente, para os padrões locais, mas não deixamos de caminhar entre as plantas, conversando sobre orquídeas, bromélias, filodendros e outras paixões comuns aos dois.

        Não pude deixar de relatar a ele sobre uma das mais marcantes oportunidades que a vida me ofereceu, quando buscava as mesmas coisas que ele, nos anos de 1970, no Rio de Janeiro. Foi quando bati às portas do Departamento de Botânica Sistemática do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, junto com meu colega de Grupo Quati de Pesquisa e Estudos da Vida Selvagem – Paulo Raguenet – procurando por um estágio. “Estágio? Não, isso não é bem assim”, nos falou um funcionário que nos recebeu, dois meninos, tais como o Nathan, à porta do Departamento. Porém, escapando ao comportamento habitual dos burocratas, este senhor ainda pensou um pouco, pediu que esperássemos um instante e foi falar com alguém: “Esperem, pois tem uma pessoa que talvez possa lhes ajudar”. Retornou, instantes depois, com uma senhora pequenina que logo nos perguntou: “O que querem?” A resposta: “Conhecer plantas, saber mais sobre botânica!”.

        Aquela senhora era nada menos do que a Dra. Graziela Maciel Barroso, botânica que mudou o curso da pesquisa e da própria instituição do Jardim Botânico, vindo a se tornar a mais célebre taxonomista da América Latina. “Se vocês querem conhecimento, venham comigo. Não temos dinheiro para pagar e nem tanta estrutura assim (Que diferença para os dias de hoje!), mas as portas estão sempre abertas ao conhecimento...” Permaneci cerca de um ano, trabalhando no Jardim, onde também fui orientado pela Dra. Ariane Luna Peixoto, mais tarde diretora da Escola Nacional de Botânica Tropical e igualmente uma botânica de expressão mundial. Aquele gesto de boa vontade, contei a Nathan, abriu caminhos para tudo o que veio depois. Por isso, temos que estar sempre de portas abertas para os jovens, quando demonstram avidez pelo bom, pelo progresso cultural. Dona Grazi, como era conhecida no JBRJ, trabalhou duramente, até os 92 anos, formando novas gerações, que hoje brilham no cenário científico.

        Tocou-me bastante a figura límpida e clara do menino Nathan. Enxerguei-me nele, não somente pela repetição romântica de meus passos, tantos anos atrás, mas pelo seu jeito típico do jovem de hoje. Assim como eu, nos anos setenta, ele trajava roupas de moda, assessórios “da hora” e sua mochila, às costas. Falava bastante, tentando demonstrar seus conhecimentos sobre as plantas – excelentes, por sinal – e portava uma câmera fotográfica digital, coisa impensável, em minha época. No visor da maquininha, me mostrava imagens de orquídeas, bromélias e outras paixões, além de seu orquidário, assim como o meu da Ipanema daqueles tempos, uma estrutura improvisada, própria da idade e das posses de um adolescente. Estava ali um jovem saudável, com sua vaidade típica dos dezessete, mas cheio de sonhos e vontades.

        Tentei orientar, no pouco que pude, pensando que me encontrava agora do outro lado da vitrine. Olhando para o novo naturalista Nathan, que deseja ser, em suas palavras, Biólogo – Taxonomista Botânico – Especialista em Orchidaceae – mais em especial ainda, do gênero Agraecum – olhava para mim mesmo, no passado. Tinha ali, em minha frente, mais um sonhador, um idealista, com seus projetos. Não pude deixar de dar a ele um último conselho, antes de nos despedirmos: Projetos são planos de viagem. Tendo-os, sabemos para onde estamos querendo ir e poderemos, se necessário ou interessante for, mudar de rumo, no sentido de nossas realizações. Sem projetos, somos naus sem bússola e não sabemos para onde vamos, quase sempre encalhando em praias ruins. Boa sorte, Nathan! Lá de cima, Dona Graziela talvez esteja a me olhar, pensando que seu coração aberto conseguiu sensibilizar outros corações, outras mentes, dispondo novas pontes para novas carreiras, novas missões de vida. Satisfeito em poder ajudar, despedi-me do mais novo naturalista brasileiro, que seguia seu curso. Como dormi bem, esta noite. Eu, minhas orquídeas e minhas boas lembranças.


O Autor - Orlando Graeff - no final da Década de 1970, no Vale do rio Soberbo, Serra dos Órgãos, compenetrado, fotografando a floresta.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Parques Fluviais – O Parque da Orla do Piabanha e a Tragédia de Itaipava

Tinha decidido não tratar mais, neste blog, dos horrendos acontecimentos que vitimaram mais de 760 pessoas, em todo o Rio de Janeiro, 64 delas, pelo que consta, somente no Vale do Cuiabá, aqui em Itaipava. Falo da tragédia de Itaipava, na madrugada de 11 para 12 de janeiro, quando chuvas descomunais se abateram, sobre uma extensa linha de montanhas, na Região Serrana Fluminense, ocasionando escorregamentos, corridas de lama (Ver texto do dia 13 de janeiro, neste blog) e enchentes, que esmagaram não somente casas e gente, mas também a maior parte dos conceitos e conhecimentos da área técnica. Porém, ficara uma lacuna a ser preenchida, para mim, referente ao Parque da Orla do Piabanha, em Itaipava, que ficou conhecido como POP. Criado por mim e pela Yara Valverde, com a ajuda inestimável do falecido Luiz Campos Filho e do Guilherme Siqueira, em 2006, o POP acabou virando realidade, anos depois, com o pomposo nome de Parque Fluvial do Piabanha – Santo Antônio.

Mas, o que teria a ver o POP com a tragédia de Itaipava? Bem, para que o leitor possa entender um pouquinho do que digo, seria interessante que conhecesse o projeto do Parque Orla do Piabanha. O POP nasceu, muitos anos antes, quando uma dragagem do rio Piabanha resultou em drásticas intervenções, nas suas margens, provocando intensa discussão. As dragagens eram necessárias, pois as enchentes assolavam a região e nenhuma outra solução podia ser apontada. Mas, o que fazer com as margens do Piabanha, antes que fossem ainda mais invadidas pelas ocupações ilegais e de alto risco? Surgiu, então, a idéia de se criar um parque público, que mesclasse os objetivos de laser e conservação ambiental, possibilitando a repetição previsível de outras obras de limpeza e dragagem, no futuro.

Em 2006, após a publicação da idéia e de meus desenhos, em parceria com o Luiz Campos Filho, na Revista Estações de Itaipava, um grupo de cidadãos petropolitanos, unidos em torno da NOVAMOSANTA, uma associação de moradores de Itaipava, resolveu convidar-nos a desenvolver o projeto, em nível conceitual. O sucesso foi total e, pela vontade dessa gente decidida, o POP acabou se transformando no Parque Fluvial do Piabanha – Santo Antônio, por abranger também o rio Santo Antônio, que recebe os rios do Jacó e Cuiabá, acima, desaguando no Piabanha, bem no Centro de Itaipava. 

Nem precisaria dizer que sua iniciativa inicialmente modesta ganhou importância e se tornou mais complexa, com muitas outras canetas apontando para a prancheta, até que ele tivesse suas obras iniciadas, com grande pompa de estado, durante 2010, um ano eleitoral. Nesta fase, tão somente pude ajudar definindo os conceitos da área de arborização e jardins, radicalmente alterados, tempos depois, na hora de ir para o campo.

Não vim aqui nesta postagem criticar as obras de implantação do Parque Fluvial do Piabanha – Santo Antônio, até por que já lhe sobravam reclamações, por parte da sociedade, que via seu sonho se transformar numa colcha de retalhos políticos, administrativos e de vaidades insaciáveis. Continuo a torcer para que ele se torne realidade, do jeito que vier, pois será ainda melhor do que a degradação definitiva e irreversível, liquidamente certa, frente ao seu eventual fracasso. Muito pelo contrário, declaro meu encanto com o cumprimento claro e inequívoco de sua função principal, cujo sucesso se pôde constatar, logo depois da medonha torrente de lama e destroços ter passado: Falo de sua missão de não atrapalhar o curso das águas dos rios, seja qual for sua vazão. Sim, pois este princípio havia ficado bem evidente no POP, como qualquer um poderá observar, no projeto de 2006, disponível na internet. As feições das margens do rio deveriam ser preservadas, prevendo que o rio pudesse vir a sofrer cheias, momentos nos quais necessitaria dessas calhas de transbordamento, para evitar tragédias maiores.

Em nossa concepção, o POP seria utilizado pelas pessoas, para caminhadas, passeios de bicicleta, cavalgadas e lazer, em geral, trazendo convívio do ser humano com o rio, já tão agredido e, com isso, restabelecendo ligações afetivas entre ele e a natureza. Nos momentos de cheia, seja com qual força isso ocorresse, a calha do rio seria utilizada por ele e suas águas, como sempre fora, por milhares de anos. Terminadas as enchentes, o POP seria limpo, sua grama cortada e seus pavimentos reparados, se necessário, retornando todos à vida normal – o rio e as pessoas. Isso não poderia ser feito com casas, carros e, é claro, vidas humanas. Por fim, tornando-se necessárias obras de dragagem e limpeza, as vias internas do POP serviriam para o movimento de máquinas e caminhões, voltando ao domínio dos cidadãos, logo depois.

O pequeno pedaço de Parque Fluvial do Piabanha – Santo Antônio, que foi iniciado, exatamente na barra do Santo Antônio, ponto final da terrível torrente da madrugada de 11 para 12 de janeiro de 2011, mostrava exatamente esta capacidade. O único pedaço da pequena praça que sofreu danos foi um trecho destituído de gabião (Enrocamento), um erro de execução, por sinal, que poderá ser facilmente reparado, antes da conclusão das obras. Podemos observar, com isso, que o caminho para essa nova relação “homem – cursos d’água urbanos” é mesmo esse, ou seja, os Parques Fluviais. 

Deixo aqui uma pergunta, meio imaginativa, sem querer bancar o chato, que só aparece depois dos fatos, para falar: Viu? Eu não falei? Essa pergunta, que pretendo ser construtiva, é a seguinte: Já imaginaram se, em vez de favelas, ocupações irregulares ou de risco, aterros etc., no Vale do Cuiabá, tivéssemos o POC (Parque da Orla do Cuiabá), teríamos assistido aos horrores noticiados? Ou estaríamos hoje apenas limpando o parque, para novos dias de sol, lazer e muito turismo – e divisas – na nossa querida e famosa Itaipava?







sábado, 15 de janeiro de 2011

A Tragédia de Itaipava III - Enchente... Não! Uma Corrida de Lama

Na internet, através de sites como G1 e O Globo, podemos hoje acompanhar  centenas de fotografias extremamente esclarecedoras do que ocorreu, na noite do dia 11 para 12 de janeiro, quando uma verdadeira bomba meteorológica despencou dos céus e ocasionou a morte, até agora contada, de mais de 500 pessoas, entre Itaipava, Teresópolis, São José do Vale do Rio Preto e Nova Friburgo. Mais do que percorrer essas galerias de imagens, em busca de simples curiosidade mórbida, podemos aproveitar essa oportunidade informativa para refletir sobre o que ocorreu, subsidiando análises técnicas que nos levarão a entender os processos e tentar – pelo menos – prevenir outras ocorrências parecidas.
Primeiramente, torna-se importante compreender o que ocorreu com o tempo meteorológico, em si, que foi o gatilho inicial de todo o resto. Estamos em plena vigência do fenômeno conhecido como La Niña, que tem tomado força, desde o ano passado, determinando modificação notável dos padrões de circulação atmosférica. As previsões iniciais eram: Mais chuvas no norte, menos chuvas no sul e... Padrões normais no restante do país, o que incluiria o Centro-Oeste e o nosso Sudeste. Tendo retornado do Cone Sul – Uruguay e Rio Grande do Sul – há alguns dias, posso atestar: Por lá, as previsões foram certeiras e a região já enfrenta sérios problemas de secas. No Centro-Oeste, as chuvas vêm sendo um pouco acima do previsto, mas nada de tão grave, até agora. Para nós, aqui, nem é necessário dizer que a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCZS) formou um corredor fortíssimo, trazendo grande quantidade de umidade da Amazônia, fazendo-a despencar insistentemente sobre o Rio de Janeiro e São Paulo.
Não existe ainda qualquer escape inquestionável do comportamento do clima, no que ocorreu até agora. Mas, pode-se sim dizer que a luz vermelha já andou acendendo, uma vez que a recorrência de precipitações dessa ordem é bem rara – Mais de 120mm para grande parte da área afetada e incríveis 180mm na direção de Nova Friburgo. Pelo menos foi isso que a imprensa veiculou, mas isso terá que ser conferido, junto aos órgãos competentes, para se ter certeza do que dizemos. Ora, níveis de precipitação de 60mm já costumam ocasionar tragédias, em regiões de relevo como o nosso, fortemente inclinado e crítico. O que dizer de chuvas como as dessa semana? Porém, como é de costume, nessa época do ano, o que realmente contou foi a umidade antecedente. Explico: Foi a chuva que, lenta e gradualmente, caiu na região, durante praticamente todo o final de dezembro e início de janeiro. O solo se encharcou, se fluidificou e se preparou para o golpe final.
Daí vem a discussão sobre as causas humanas da tragédia. Afinal, jamais se tinha visto destruição desta ordem, parecendo uma dramática resposta da natureza, contra as agressões que o homem lhe vem impondo. Um pouco de cada coisa, podemos afirmar. Sim, o homem potencializou tudo isso e não foi somente nos últimos anos, ao construir nas margens dos rios e nas encostas. Afinal, a devastação atingiu áreas aparentemente nunca antes afetadas, algumas bem longe das linhas de risco usualmente aceitas. Mas, apenas numa rápida olhada nas fotografias veiculadas, podemos notar a ruptura de cabeceiras de altas encostas, que iniciaram os escorregamentos, quase sempre coincidindo com “pelados” (áreas parcamente vegetadas, devido a solos fracos), zonas de pastagens degradadas e, como não poderia deixar de ser, de solos rasos, sobrejacentes a rochas granitóides, que são os chamados “contatos solo-rocha sã” dos Geólogos e Geomorfólogos. Sob este aspecto, pode-se afirmar que o uso histórico do solo PELO HOMEM preponderou, como causa humana da tragédia, sobrepujando a predisposição da população atual de se colocar diante das águas... Águas? Não, não foram apenas as águas que causaram tudo isso e é muito bom que isso fique claro, para que não se misturem assuntos e estratégias de enfrentamento do problema.
O que se viveu, na noite de 11 para 12 de janeiro, misturou dois tipos de fenômenos altamente destrutivos, bem conhecidos dos Geomorfólogos, mas que ocasionam certa confusão, por ligados que costumam ser, o que lhes determina fronteiras nebulosas: O primeiro deles, em alta encosta, foi o escorregamento, no qual a terra de descola e desce pela rampa, soterrando o que lhe estiver pelo caminho; O segundo, que predominou como frente destrutiva, foi a corrida de lama, uma torrente de solo fluidificado, misturada com água e, é claro, toda sorte de materiais que encontrar pelo caminho, que corre aceleradamente, pelas calhas de rios e vales, destruindo tudo o que encontrar pela frente. Assim, devemos ter claro que o que destruiu tanta coisa e matou tantas pessoas não foi uma enchente e sim uma corrida de lama.
A corrida de lama, pela sua alta viscosidade, tal como uma corrente de óleo, possui a capacidade de mover e arrastar corpos que jamais seriam movidos pela água pura. Falo de corpos, no sentido físico, o que por certo não excluiu os corpos humanos que marcaram as imagens da tragédia. Foram blocos de rocha monumentais, casas, carros e troncos, que serviam como verdadeiros aríetes, em seu percurso destruidor, vales abaixo. Cabe ressaltar que a história geológica desses vales é marcada por incontáveis ocorrências deste tipo, como atestam os inúmeros blocos de rocha e reentrâncias escavadas lateralmente nos vales. Isso nos faz ver que, mesmo acima da influência do homem, mesmo em tempo mais longo do que sua existência na região, a paisagem já experimentou coisa igual ou pior e, sinto ter que informar: Ainda haverá muitas outras, sabe-se lá quando. Por isso, caros amigos, é que venho batendo, insistentemente, nesta tecla que, por vezes, parece soar meio agressiva ou radical. Chegou a hora de revermos o mapa de ocupação e uso do solo de regiões como a nossa. E, como já vim de falar, anteriormente, precisaremos de coragem política e abnegação eleitoreira, por parte dos mandatários, sempre preocupados com sua famigerada perpetuação no poder.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Tragédia de Itaipava II - Em Busca da Mudança de Paradigmas

Meu amigo Maurício Verboonen, companheiro de aventuras, pelo Brasil afora, me escreveu, falando sobre o texto que postei, referente à tragédia do Vale do Cuiabá, ocasionada pelas chuvas desta semana. Disse-me ele:
“É a maior verdade a sua análise da tragédia, pois não se pode alegar surpresa quanto aos danos causados nas casas que foram afetadas; de fato é um evento causado por uma precipitação de chuva extraordinária mas previsível de ocorrer em um prazo de décadas, cabe ao poder público analisar os riscos e não autorizar a ocupação das áreas que podem ser afetadas e remover as construções já edificadas.
O paternalismo eleitoreiro ignora esta obrigação e autoriza construir, permite ligação de luz e água, estimula a urbanização, asfaltamento, linhas de ônibus e colhe os votos dos beneficiados por estas ações. As tragédias são explicadas por fatos imprevistos ou pela ridícula sugestão que as águas são obstruídas pelo lixo (a contribuição do lixo é desprezível nos alagamentos que vimos ontem).
Qual o tamanho da tarefa? Alargamento dos canais dos rios, construção de bacias para dispersar o volume maior da enchente, interdição de encostas e várzeas para a construção de prédios, demolição e reconstrução de milhares de imóveis em áreas seguras e por aí vai...
Sendo assim eu prevejo a repetição do mesmo de sempre: prantear os mortos, sepultá-los e esquecer o ocorrido; verbas para a reconstrução serão gastas porcamente ou roubadas e segue a nossa triste avacalhação.
Nenhum otimismo. Me dê esperanças”
Achei importante transcrever sua mensagem, antes de firmar minhas impressões, com respeito ao que ele afirmou. Como qualquer um pode ver, grande parte das pessoas pensa desta maneira, que pode ser resumida num paradigma essencial: O sistema não se fundamenta na racionalidade técnica, mas sim, essencialmente, no eterno jogo da perpetuação do poder. Não seriam necessárias mais palavras, para definir o padrão cultural envolvido na repetição cíclica de tragédias, epidemias e outras vicissitudes deste Brasil que vai pra frente. Mas, creio que não poderei deixar de apontar caminhos, mesmo que, como afirmou meu amigo Maurício, o poder estabelecido continue “pouco ligando e andando” para minhas opiniões.
Escutei um entrevistado da Rede Globo, cujo nome não tive tempo de anotar e, portanto, peço a licença da transcrição de suas afirmações, sem a citação de sua autoria. Disse ele: “Durante muitos anos, acreditávamos nada poder fazer, com relação à situação do Morro do Alemão, no Rio. Pois bem. Mostramos ser possível fazer diferente, por lá. E a comunidade hoje se encontra pacificada e a vida mudou. Por que não podemos fazer o mesmo, com relação à repetição de tantas tragédias, todos os anos, dando um basta nesse jogo de empurrar para frente?” Foi disso que Maurício me falou: “Qual o tamanho da tarefa?” Ela é imensa, não há dúvidas, como era quase impensável a tarefa do Morro do Alemão. Certamente, deverá ser enfrentada com coragem política, espero que ela ainda exista, em alguma dessas cabeças coroadas que andamos colocando lá, nas Câmaras de Vereadores, Prefeituras, Alerj e Palácio das Laranjeiras.
Sempre fui encarado, por muitas (Não poucas) pessoas, como um tipo de fascista ecológico, quando afirmava, sem medos das estrelas vermelhas do poder, que era favorável às remoções de famílias de áreas de risco, do enfrentamento duro dos processos de urbanização caótica, nas encostas e zonas de risco. Devolviam-me com os usuais desaforos: “Você quer tirar pessoas para plantar bromélias e ajudar os bichinhos”. Vêem agora a injustiça? Não comigo, mas com essa gente, essas pessoas, que eram ali mantidas, por suposta justiça social, apenas para morrer agora, sob toneladas de entulho. Enquanto isso, os estrelados vestem honradamente seus uniformes de campanha camuflados e se atiram heroicamente ao resgate dos desvalidos, fingindo não terem sido eles, lá atrás, quem realmente os manteve, ecologicamente, na frente da torrente de lama assassina. Repito o que venho afirmando: Remoção sim, por que não? Vamos mudar definitivamente este paradigma imbecil? Então, mesmo sem ser especialista em políticas habitacionais, mas a partir de minha pequena experiência em meio ambiente, aqui vai uma receita de bolo, para ser melhorada pelos doutores do poder:
1)Procure, inicialmente, recursos financeiros (que efetivamente existem – A Dilma falou!) para aplicar no processo; 2)Encontre, a partir de diagnósticos responsáveis, adicionando um pouco de boa vontade, áreas disponíveis para realocação, com toda a decência – Use uma pitada de autoridade, se dispuser deste condimento; 3)Retire as famílias dos locais de risco, indicados por levantamentos técnicos (Este produto se encontra disponível em qualquer gabinete das universidades e mesmo no governo); 4)Coloque as famílias em local seguro e, por fim; 5)Transforme as áreas de risco em parques fluviais, florestas urbanas e outras modalidades de áreas públicas, em caráter irrevogável. As calhas de rios e alinhamentos de fluxo devem ser sistematizadas, de forma a absorver possíveis sobre-fluxos. Pronto, a receita está pronta e pode ser servida para a sociedade. Mas, cuidado: Se você que a prepara tiver cargo eletivo, poderá não se reeleger, pois certamente desagradará muitas pessoas. Mas, com certeza, terá cumprido com suas obrigações e o futuro mostrará isso.
Ainda pretendo voltar a este assunto, mais à frente, assim como ao dos parques fluviais, como o Orla do Piabanha, que vêm sendo bastante comentados, por tratar áreas de margens de rios. Por fim: Chega de reeleições! Ao buscá-las, freneticamente, os políticos fazem toda sorte de tratos com o diabo e viram as costas às suas verdadeiras obrigações – CUIDAR DA COLETIVIDADE!