Nos anos 1990, durante o boom que consagrou as bromélias
como as plantas mais desejadas, no Brasil, imensa quantidade de plantas foi
extraída da natureza, para abastecer o mercado florescente de ornamentais.
Algumas plantas extraídas da Floresta Atlântica ficaram famosas, ao serem massivamente
oferecidas, nas margens das estradas, destaque para a subida da Serra de
Petrópolis, no Rio de Janeiro. Vriesea inflata era uma delas.
Conhecida vulgarmente como “bromélia-peixinho”, em virtude
do curioso formato de suas inflorescências vistosas, Vriesea inflata era
encontrada por todos os cantos, nas residências dos veranistas, ou de quem
viajava entre o Rio de Janeiro e a Cidade Imperial. O epíteto de seu nome “INFLATA”
diz respeito exatamente a esta forma singular da inflorescência: o conjunto de
brácteas superpostas umas às outras, ao longo da haste, que formam
compartimento inflado. Pressionada sob os dedos, essa inflorescência cede
gentilmente, como um balão de borracha.
Vriesea inflata deixou de ser coletada pelos mateiros, na
esteira da desejável chegada ao mercado das mais lindas bromélias cultivadas,
que apresentavam melhores condições fitossanitárias e cores mais vistosas, além
do preço bem mais competitivo. É assim que se combate a coleta criminosa de
plantas: fornecendo ao mercado mercadorias confiáveis e belas, a preços
razoáveis.
Ela habita os locais mais úmidos das íngremes encostas da
Serra do Mar, em grandes altitudes. Provenientes de apreensões realizadas pelo
extinto IEF (Instituto Estadual de Florestas do RJ), alguns exemplares vieram
dar à coleção, naquela década, sendo hoje mantidas nas árvores do Jardim
Fitogeográficos, muito próximo à sua área natural de ocorrência. A tendência é
que se multipliquem por aí e repovoem as florestas próximas.
A floresta do Jardim Fitogeográficofoi quase
inteiramente reflorestada, pois pouco mais havia, em 2007, quando viemos
residir no local, do que capim-braquiária, taquaras e algumas poucas arvoretas
mirradas. Sobre este reflorestamento, falamos anteriormente, na postagem de 16 de setembro de 2016: http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/09/quesnelia-arvensis-bromelia-da-floresta.html . Bem, dentre essas “arvoretas mirradas”, havia algumas espécies
interessantes, que ganharam viço, durante o trabalho de regeneração da
floresta. Hyptidendron asperrimum (família Lamiaceae) era uma delas.
Trata-se de uma arvoreta característica das matinhas de
encosta de altitude da Serra dos Órgãos, em sua vertente interiorana, onde
predomina o clima estacionalmente seco de inverno. Ocorre em outras partes do
Sudeste e até mesmo no Mato Grosso. Nos domínios das escarpas e vertentes
voltadas ao Vale do Paraíba, costumam ocupar bases de paredões de pedra, ou
florestas baixas dos topos de morros, onde os solos são fracos e muito
drenados, situação mais ou menos do local onde estamos.
Hyptidendron
asperrimum produz flores violeta, que surgem principalmente nesta época do
ano – final de inverno a início de primavera. Junto com elas, vêm os
pintassilgos (Carduelis magellanica), que são minúsculas joias cantarolantes,
amarelo-ouro, matizadas de negro, que cantam maviosamente, enquanto forrageiam
nessas flores, ocasionando lindo contraste.
É uma arvoreta baixa, de seus cinco metros, pouco mais, com
tronco recoberto por espessa casca suberosa, como o são muitas árvores deste
tipo de floresta. Por isso, presta-se razoavelmente bem para algumas bromélias,
que foram afixadas nos troncos de alguns exemplares do Jardim Fitogeográfico.
Plantas dos gêneros Vriesea, Aechmea e Quesnelia se deram bem neste tipo de suporte, embora exista risco
de desplacamento ocasional, coisa usual em plantas de climas estacionais.
No setor de ambientes abertos do Jardim Fitogeográfico( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), onde estão as
espécies de campos rupestres, restingas e campos de altitude, uma planta vem se
adaptando esplendidamente, chegando a formar grande touceiras, que florescem
todos os anos: a orquídea Epidendrum xanthinum. Ela floresce
principalmente nesta época do ano – entre final de inverno e início de
primavera, embora seja rara uma época em que não mostra ao menos algumas
flores.
O nome epíteto xanthinum diz respeito à sua
coloração predominantemente amarela, podendo apresentar tonalidades douradas,
até um pouco alaranjada. Ela pertence a um grupo de orquídeas bastante complexo
em sua taxonomia, o que advém de sua morfologia extremamente convergente: é a
aliança de Epidendrum secundum, cuja
espécie mais famosa, que tipifica este grupo, comum em cultivo e nas paisagens
de margens de estradas, exibe coloração rosada.
São plantas de crescimento ereto, aparentemente monopodial
(que cresce apenas num eixo), embora ramifique intensamente, de forma lateral,
o que termina por originar densas touceiras. Como é comum no grupo, frutifica
intensamente, liberando milhares de sementes, que voejam com o vento e acabam
germinando em vários outros locais.
Epidendrum xanthinum no Jardim Fitogeográfico
Na natureza, habitam afloramentos rochosos, em diversas
altitudes, mas quase sempre nas cercanias de fios d’água, que escorrem pelas
rochas e ajudam a formar núcleos de umidade, sempre com luz farta. Crescem nas
margens de estradas, tolerando até as condições de rodovias movimentadas, onde
abunda a poluição e o vento forte ocasionado pelos veículos. Em Petrópolis,
pode ser admirada nas rochas que margeiam a movimentada BR040, juntamente com E. secundum.
Quando fazia jardins, na Década de 1990, era a época de ouro
das bromélias, no paisagismo. Foi um verdadeiro “boom” de plantas trazidas da
natureza, para lotar os jardins com bromélias, as mais variadas, vindas dos
mais diversos locais. O mercado não se importava com a matéria
conservacionista. Bem, talvez isso não tenha mudado muito, embora já se tenha
hoje a plena consciência de que a coleta de plantas, nos ecossistemas,
representa atividade danosa e até virou crime, passível de prisão.
Paralelamente, os horticultores trataram de produzir
esplêndidas cultivares de bromélias, com belas características, que não
encontram rivais na natureza. Essa, na verdade, foi a grande solução para o
grave problema da coleta criminosa de plantas, uma vez que ninguém trocaria
essas plantas bem produzidas e com formas à beira da perfeição, por outras
vindas das matas, com folhas rasgadas, manchadas e cheias de pragas e doenças.
Ainda mais se o preço for competitivo.
Numa postagem anterior, deste blog ( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html ),
tratei da complexa questão da coleta criminosa de plantas na natureza e creio
que a questão foi bem definida. Naquela ocasião, citei o fato que, durante
muitos anos, nas minhas expedições pelas florestas e demais ecossistemas
brasileiros, cheguei a coletar plantas, com o estrito objetivo da descoberta
científica e investigação. Nestas oportunidades, cuidava muito para coletar
apenas partes de plantas (fragmentos de propagação vegetativa ou sementes), ou
mesmo seedlings ou indivíduos
redundantes, em populações que poderiam absorver este impacto necessário.
Felizmente, a ciência e o conhecimento sobre a flora
avançaram muito, havendo excelentes listagens de espécies, para quase todos os
ecossistemas, dispensando a necessidade de coletas. Mas, como seria de esperar,
grande parte das plantas que trouxe da natureza ainda vivem na coleção de
plantas do Jardim
Fitogeográfico, tendo até deixado incontáveis descendentes, como é o
caso da vistosa bromélia Neoregelia correia-araujoi, que já
foi muito comum, na região da Costa Verde, litoral sul do estado do Rio de
Janeiro. Essa bromélia era intensamente coletada, nas florestas de Mangaratiba,
Angra dos Reis e Paraty, sendo empurrada às vias da extinção, embora venha se
recuperando muito rapidamente, em função de ser planta bastante prolífica, no
seu habitat natural.
Neoregelia correia-araujoi vive hoje em algumas árvores do
Jardim Fitogeográfico, principalmente no setor da floresta recuperada. Mas,
também se adapta bem aos muros de pedra, onde se imita uma de suas formas
bastante comuns de ocorrência, na região de origem: os topos dos grande
matacões de pedra granítica, quase à beira do mar. Velhos muros de ruínas do
Século XIX, assim como telhados de algumas residências, em Angra dos Reis e
Paraty, também abrigam belos indivíduos da bromélia que chamávamos de “finger-nail-plant”,
no meio jardinocultural, por parecer com unhas pintadas com esmalte vermelho.
Esta bela bromélia, com porte relativamente avantajado, é
uma planta tanque-dependente (guarda água no imbricamento de suas folhas),
cujas flores alvas emergem diretamente do pequeno lago de vida e são
intensamente buscadas por colibris e abelhas brasileiras. Seus pequenos
frutinhos são bagas adocicadas, que os pássaros procuram avidamente, tratando
de espalhar a planta, nas outras árvores. A espécie, aliás, tem cultivo muito
fácil, bastando coletar suas sementes e plantá-las em vasos coletivos. Milhares
de plantas saíram de semeaduras de nossa coleção, nos anos 2000, para abastecer
cultivos comerciais, tendo assim colaborado para evitar a coleta.
Acima – labareda de mais de 60m, no
incêndio florestal ocorrido na
RPPN
Graziela Maciel Barroso – Condomínio Quinta do Lago – em 08 de setembro de 2008.
Compare o
tamanho da residência, situada abaixo das chamas
Se você já leu o capítulo de nosso livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL(NAU Editora –
2015), em que tratamos do fogo nas vegetações, já deve estar mais do que por
dentro deste assunto: O FOGO NA NATUREZA. Já deve saber que os incêndios
florestais, no nosso país, salvo EXCEÇÕES, advêm das mãos humanas. Ou seja,
toda a destruição que você verá, quando o fogo se alastra pelas matas e
montanhas, aniquilando a fauna, a flora, solapando a fertilidade natural de
nossos solos e, ainda por cima, em muitos casos, trazendo prejuízos materiais e
fazendo vítimas, começa pela mão de um ser (des)humano.
Antes que alguém desvie o assunto, para se dedicar à inócua
discussão sobre possíveis origens naturais dos incêndios florestais,
atribuindo-os a pedaços de vidro, “combustão espontânea” ou mesmo raios, aqui
no Brasil, deixemos uma coisa bastante clara: embora os dois primeiros sejam
pura balela e os raios possam sim deflagrar incêndios na vegetação, isso
representa EXCEÇÃO e, ao menos em nossa região de Floresta Atlântica, toma
parte tão somente em dinâmicas de fragmentos, jamais chegando a ocasionar a escala
de destruição verificada nos incêndios florestais da Cadeia Atlântica.
Tendo isso em mente, passemos a tratar deste assunto sério,
que são os incêndios florestais, principalmente nas regiões da Serra do Mar, ou
de forma mais ampla, na chamada Cadeia Atlântica, que é o imenso conjunto de
serras montanhosas, que separa o Brasil Continental do Oceano Atlântico. Nossa
intenção, através desta postagem, é mostrar os principais aspectos da
propagação de incêndios florestais, nas montanhas, deixando para um próximo
capítulo o conjunto de sugestões fundamentais para prevenção desta força
destruidora, que é seguramente o principal agente destruidor de nossa
biodiversidade.
Abaixo – O livro FITOGEOGRAFIA DO
BRASIL, de autoria de Orlando Graeff (2015),
onde o
assunto FOGO é minuciosamente tratado
Acima – O autor consultando o capítulo
sobre o FOGO, em seu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL
CONDIÇÕES PARA
INCÊNDIOS: A época mais frequente de ocorrência de incêndios florestais é
no INVERNO SECO E FRIOtípico do
clima tropical, desta região do país. Isso costuma acontecer, geralmente, entre
maio e setembro, quando a vegetação está seca e favorece a propagação do fogo.
Em nosso livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL,
explicamos que a condição ideal para a propagação do fogo florestal é a elevada relação carbono X nitrogênio da
biomassa. Isso significa dizer que, quanto mais tarde ocorrer o fogo, maior
será sua agressividade e sua capacidade destruidora, pois as plantas concentram
maior quantidade de carbono, em seus tecidos, para resistir ao frio seco. Como
se sabe, carbono é o principal combustível para o fogo. OS PIORES INCÊNDIOS OCORREM EM SETEMBRO,
época em que convergem maiores temperaturas do ar; maior relação carbono X
nitrogênio; e ventos fortes.
COMO SE INICIA: O
fogo pode se iniciar no alto das montanhas, quando balões criminosos caem,
ateando fogo à vegetação esparsa e geralmente campestre dos topos de morro.
Porém, na maioria esmagadora dos casos, se inicia na BASE DOS MORROS, durante
queima de lixo, ou simplesmente ateado por incendiários. Acredite ou não, a PIROMANIA (mania doentia de atear fogo) é muito
comum e representa causa importante da deflagração de incêndios.
COMO SE PROPAGA:
Nas ilustrações do texto, vemos uma representação esquemática da força que faz
propagar o fogo, morro acima, na Região Serrana Fluminense. Em resumo, devemos
ter em mente que o ar quente, gerado pelas chamas iniciais, retroalimenta o
incêndio, quando faz surgir uma camada hiperaquecida de ar, junto ao solo,
ocasionando sua ascensão rápida, morro acima. Esse VENTO DE AR QUENTE se
assemelha às correntes ascendentes, que sobem as encostas, nas horas mais
quentes do dia, ajudando praticantes de voo livre a subir, com suas asas-delta.
O sopro cada vez mais rápido do ar quente desliza pela superfície da encosta,
ganhando cada vez mais velocidade, na medida em que o fogo é oxigenado pelo ar,
que vem pela retaguarda, puxado pelo próprio ar quente, que sobe acima.
A SEGUIR – Desenhos esquemáticos, que mostram a propagação de um
incêndio florestal, numa região montanhosa da Região Serrana do Rio de Janeiro
Acima – O fogo se alastra nas encostas da RPPN Graziela Maciel
Barroso, em Petrópolis, com as chamas se retroalimentando, rampa acima, pelo
deslocamento do ar aquecido
Acima – Num nariz de encosta, as chamas assumem uma linha de avanço
em V invertido, no qual a parte do vértice tem mais força, pela convergência
dos “ventos de ar quente”
Acima – Encosta da RPPN
Graziela Maciel Barroso, durante o incêndio de setembro de 2008, sendo
possível notar a direção dos “ventos quentes” originados no fogo: seguem para
sotavento da montanha, num sentido pouco usual, na localidade
Acima – Vertente completamente tomada pelas chamas, na RPPN Graziela Maciel Barroso, em
setembro de 2008: essa floresta de encosta foi completamente destruída e não
existe mais
Acima – Uma vez atingindo o topo da Pedra do Pastor, na RPPN
Graziela Maciel Barroso, as chamas passaram a descer pela encosta a sotavento.
Observe que as chamas, morro abaixo, perdem força e queimam devagar (esquerda)
Abaixo – O helicóptero do Corpo de Bombeiros combate o fogo de
setembro de 2008, na RPPN Graziela Maciel Barroso, permitindo a dura comparação
com a porte do incêndio, praticamente incontrolável
Acima – No entardecer do dia 08 de setembro de 2008, moradora de
casa situada na frente de propagação das chamas tenta combater uma frente de
labaredas, que ascendia a encosta e viria a atravessar o aceiro, por conta dos
ventos de ar quente. Note que a onda de calor é visível pela luz avermelhada,
que reflete na floresta
É por essa razão que, durante incêndios florestais, na
Região Serrana, você verá aquele vento forte, que parece surgir do nada, como
se a natureza o tivesse mandado, exatamente para piorar as condições. Nas áreas
planas do Centro-Oeste, plantações e pastagens são aniquiladas por vórtices de
vento aquecido, em meio às chamas, que sobrem como tornados de fogo e lançam
longe a palha incandescente, que vai atear mais focos, alhures. Aqui, em nossas
montanhas íngremes, as encostas funcionam como “chaminés gigantes”, que
canalizam esse ar quente e produzem LABAREDAS INCONTROLÁVEIS EM ALTA ENCOSTA. Quem
já combateu incêndios florestais, em Petrópolis ou Região Serrana, sabe bem
como se torna impraticável e extremamente arriscado fazer frente a essas
chamas, que destruirão tudo à sua frente, até que terminem por queimar tudo.
Numa próxima postagem, falaremos mais um pouco sobre como se
pode prevenir, ou minimizar o avanço das chamas, que destroem de forma endêmica
nossa vegetação, causando erosão de solos, extinção da flora e da fauna e,
ainda por cima, ocasionando prejuízos materiais, ou até vítimas. Desta presente
postagem, deve restar a certeza das causas associadas ao homem e de como se
propagam as chamas, em nossa região.
Abaixo - incêndio ocorrido novamente, na RPPN Graziela Maciel Barroso, em 07 de setembro de 2016
Primavera chegando! A estação das flores de 2016 está logo
ali, daqui a poucos dias, mesmo que o Brasil não apresente aquela forte
estacionalidade dos países temperados. Realmente, em termos gerais, dizem que o
Brasil Tropical só mostra duas estações: inverno frio e seco; e verão quente e
chuvoso. Mas, se você gosta de observar a natureza, notará sim diferenças
substanciais entre cada estação do ano, coisa que a gente consegue ver bem, no Jardim Fitogeográfico.
a bromélia Quesnelia arvensis
Sobre o Jardim
Fitogeográfico, creio que a maior parte dos leitores conhece bem sua
história, que mostrei na postagem de de 16 de fevereiro de
2012 - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html . Esta nossa reserva particular, situada em Petrópolis, estado do
Rio de Janeiro, se divide em dois ambientes naturais e um controlado: são os
ambientes que se referem aos ecossistemas abertos e ensolarados(restingas, campos rupestres etc.); e àqueles florestais,
que ocupam área reflorestada a partir de 2007; além deles, uma estufa de
plantas, onde são mantidas as espécies pouco tolerantes ao clima da
Região Serrana.
Em nossa última postagem, mostramos a orquídea Cattleya intermedia, que é nativa do
compartimento litorâneo do Brasil Sudeste e Sul. Agora, falamos da rústica e
bela bromélia Quesnelia arvensis, que é nativa do Litoral do Sudeste,
principalmente na floresta atlântica de baixada litorânea, adentrando também as
restingas e as matas inundáveis do litoral. No Jardim Fitogeográfico, Quesnelia arvensis se encontra
ambientada na floresta regenerativa (reflorestamento), ocupando seus trechos
menos iluminados, que tolera muito bem e onde floresce continuamente, nesta
época do ano.
Sobre nosso reflorestamento, cabem alguns comentários
ligeiros. Ao chegarmos ao local, onde residimos e mantemos a coleção de
plantas, ainda em 2007, encontramos terreno fortemente inclinado, aos fundos,
onde pouco mais havia que denso capinzal e algumas arvoretas pontuais, aqui e
ali. Antigas pastagens, abertas ainda nos tempos do Brasil Colônia (Séculos
XVIII e XIX), quando por ali passava o Caminho das Minas Gerais, há muito se
encontravam abandonadas, onde se estabeleceu o condomínio residencial, no qual se
encontra o Jardim Fitogeográfico. Desde então, iniciamos o reflorestamento da
área, visando a reconstituição da floresta nativa.
Evidentemente que foram plantadas diversas espécies de
árvores nativas da Floresta Atlântica, além de ter sido iniciado o incentivo ao
crescimento de outras espécies nativas, que habitavam a encosta, em estado de stand-by, em que eram mantidas pelo fogo
endêmico de invernos secos e pela quase total ausência de fertilidade natural,
consumida que fora, há mais de cem anos, para a produção de pastagens, que
davam apoio às tropas de mulas, que passavam por Petrópolis, no caminho das
minas de ouro do interior.
Abaixo - sequência de imagens de parte da floresta do Jardim Fitogeográfico, desde que foi iniciada sua recuperação, em 2007
agosto de 2007
agosto de 2008
novembro de 2008
atualmente - setembro de 2016: ainda sem as folhas, depois do inverno seco e frio
A floresta recuperada do Jardim Fitogeográfica se liga a
outro pequeno fragmento de reservas florestais do condomínio, na qual a flora é
meramente residual, como o era a da área por nós cuidada. A partir da
experiência contínua de cuidados, em nossa área particular, temos também
envidado esforços graduais na revegetação da reserva florestal. Ambas
representam corpo florestal isolado e relativamente distante das florestas da Reserva Particular do Patrimônio Natural Graziela
Maciel Barroso, também pertencente ao nosso condomínio e na qual
habitam espécies ameaçadas da flora, como a minúscula bromélia litofítica Tillandsia grazielae e o famoso
rabo-de-galo (Worsleya procera), uma
amarilidácea restrita à Serra da Maria Comprida.
Não se tratando de floresta primitiva (floresta primária) e
sim de um novo fragmento regenerado artificialmente, essa área pôde abrigar
grande parte das plantas da coleção de plantas do Jardim Fitogeográfico, muito
em especial bromélias, orquídeas, aráceas e outros grupos nativos de florestas
brasileiras, sem o perigo de mistura com os elementos nativos. Contudo, como
sabemos bem que as espécies autóctones se veriam favorecidas pelas condições
ecológicas da própria região de onde eram provenientes, ficamos satisfeitos em
vê-las, desde sua reintrodução, a florescer e frutificar, espalhando-se
novamente pelos ecossistemas próximos, dos quais haviam desaparecido, há coisa
de dois séculos.
Adiante - outra sequência de imagens da floresta regenerada do Jardim Fitogeográfico, sendo possível observar sua evolução para ambiente menos iluminado. Com isso, muitos ambientes se modificaram, como continuarão a se alterar, ocasionando contínua adaptação das plantas da coleção
agosto de 2007
novembro de 2008
Abaixo - atualmente, em setembro de 2016, no final da estação seca e fria, mesmo assim, dando para observar a mudança gradual do mapa de sombras
Assim, nesta época do ano, alegramo-nos ao ver diversas
espécies da Floresta Atlântica florescendo, na floresta recuperada do Jardim
Fitogeográfico – entre elas, a bromélia Quesnelia arvensis, com suas
inflorescências vistosas, que atraem beija-flores diversos. Essa planta abunda
na Região da Costa Verde, entre Mangaratiba e Paraty, Litoral Sul Fluminense. É
uma bromélia de folhas fortemente armadas de espinhos e que apresenta tanque de
água, onde habitam inúmeras formas de vida, formando microcosmo complexo, no
qual animais exóticos, como o famigerado mosquito Aedes aegypti não tem vez.
Tempo de voltar nossas atenções para outras coisas, que não
a política, em nosso país. Afinal, há tanto mais a tratar, tanta coisa boa a
celebrar. Pois então, vamos focar numa coisa que (quase) todos adoram: plantas tropicais, flores. Nesta série
de postagens, o assunto passa a ser as plantas do Jardim
Fitogeográfico, que abriga nossa coleção de espécies botânicas, em
Itaipava, Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro.
Creio que quase todos conhecem a história do Jardim
Fitogeográfico. Eu o chamava, há algum tempo, de Jardins do Templo Fitogeográfico.
De um tempo para cá, resolvi suprimir o “templo”, por entender que, apesar de
encarar meu jardim daquela mesma forma, como relatei na postagem de 16 de fevereiro de 2012 - (http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), ou
seja, quase como algo divino, até metafísico, não queria misturar as coisas.
Religião é religião, cada um tem a sua, ou não tem. Então, vamos chamar a
coleção de Jardim Fitogeográfico.
As razões para o FITOGEOGRÁFICO
vocês já conhecem, pois referi longamente, naquela postagem: Fitogeografia é a
área da ciência que sintetiza minha linha de estudos, tratando das vegetações
na natureza. Ou seja, as plantas da coleção formam ambientes alusivos às
tipologias de vegetação observadas no país, que eu tanto investigo e que resultaram
no livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL – UMA ATUALIZAÇÃO
DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015), de minha autoria. Sobre esta
obra, você poderá consultar em meu blog EXPEDIÇÕES FITOGEOGRÁFICAS, que é
interligado a este.
Aqui no Jardim Fitogeográfico, as plantas da coleção
interagem entre si e o meio, na forma de ambientes que imitam vegetações
naturais. Tanto nas áreas abertas do Jardim, onde estão as plantas de locais
ensolarados (restingas, campos rupestres etc.), quanto na floresta que foi
recuperada, desde 2007, muita coisa interessante pude aprender com essas
plantas, no tocante a suas ecologias e seus “hábitos” de crescimento e
colonização dos ambientes. No meu livro, chamo isso de “desafio da horticultura”
e isso me ajudou bastante, em minhas reflexões.
Cattleya intermedia em cultivo no Jardim Fitogeográfico
Muito bem, vamos então à primeira planta escolhida para a
série, uma orquídea linda, que ocorre naturalmente (ou ao menos ocorria!),
entre o norte do Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul: Cattleya intermedia. O
grande naturalista Frederico Carlos Hoehne, que foi um dos pilares da
orquidologia brasileira e viajou intensamente pelo Brasil, na primeira metade
do Século XX, lançou importante olhar sobre as populações naturais de Cattleya intermedia, que se espalhavam
em grande parte do litoral do Sudeste e Sul.
Cattleya intermedia crescendo sobre muro de pedra,
no Jardim Fitogeográfico
Cattleya intermedia cresce principalmente de forma epifítica,
ou seja, agarrada aos troncos de grandes árvores, ou formando touceiras quase
suspensas por “ninhos” de raízes, nas arvoretas ramificadas e arredondadas das
restingas litorâneas. Hoehne chamou atenção, em seu célebre livro Iconografia
de Orquidáceas do Brasil, para largas populações desta orquídea, que habitavam
diretamente a superfície dos matacões de rocha granítica, ao longo do litoral
de Santa Catarina, destaque para a Ilha de Santa Catarina, onde está situada a
cidade de Florianópolis. Suas fotos davam conta de imensas rochas roladas, com
o topo recoberto de Cattleya intermedia. Quando floridas, essas plantas atraíam
o olhar cobiçoso dos coletores, que trataram de depenar impiedosamente essas
plantas, para vender a colecionadores, ou comerciantes de plantas.
Excursões pelo litoral catarinense ainda permitem a
descoberta de esplêndidas populações naturais desta orquídea, principalmente
sobre velhas figueiras, algumas protegidas em meio a terrenos alagadiços e
impenetráveis. Poucas são as plantas divisadas sobre rochas e nenhuma população
densa, como aquelas de Hoehne, pode ser mais encontrada.
Cattleya intermedia florescendo em seu habitat natural,
na Lagoa dos Patos - Rio Grande do Sul, seu limite de ocorrência austral
No Jardim Fitogeográfico, Cattleya intermedia é mantida na forma de vasos pendentes, na
estufa de plantas, e também de forma epifítica, modo com que ela mais se dá
bem, por lhe ser possível espichar suas longas raízes, nos troncos e galhos de
árvores situadas em locais protegidos do vento seco de inverno da Região
Serrana.