sábado, 24 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – VRIESEA INFLATA

Vriesea inflata

Nos anos 1990, durante o boom que consagrou as bromélias como as plantas mais desejadas, no Brasil, imensa quantidade de plantas foi extraída da natureza, para abastecer o mercado florescente de ornamentais. Algumas plantas extraídas da Floresta Atlântica ficaram famosas, ao serem massivamente oferecidas, nas margens das estradas, destaque para a subida da Serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Vriesea inflata era uma delas.

Conhecida vulgarmente como “bromélia-peixinho”, em virtude do curioso formato de suas inflorescências vistosas, Vriesea inflata era encontrada por todos os cantos, nas residências dos veranistas, ou de quem viajava entre o Rio de Janeiro e a Cidade Imperial. O epíteto de seu nome “INFLATA” diz respeito exatamente a esta forma singular da inflorescência: o conjunto de brácteas superpostas umas às outras, ao longo da haste, que formam compartimento inflado. Pressionada sob os dedos, essa inflorescência cede gentilmente, como um balão de borracha.

Vriesea inflata deixou de ser coletada pelos mateiros, na esteira da desejável chegada ao mercado das mais lindas bromélias cultivadas, que apresentavam melhores condições fitossanitárias e cores mais vistosas, além do preço bem mais competitivo. É assim que se combate a coleta criminosa de plantas: fornecendo ao mercado mercadorias confiáveis e belas, a preços razoáveis.


Ela habita os locais mais úmidos das íngremes encostas da Serra do Mar, em grandes altitudes. Provenientes de apreensões realizadas pelo extinto IEF (Instituto Estadual de Florestas do RJ), alguns exemplares vieram dar à coleção, naquela década, sendo hoje mantidas nas árvores do Jardim Fitogeográficos, muito próximo à sua área natural de ocorrência. A tendência é que se multipliquem por aí e repovoem as florestas próximas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – HYPTIDENDRON ASPERRIMUM



Hyptidendron asperrimum

A floresta do Jardim Fitogeográfico foi quase inteiramente reflorestada, pois pouco mais havia, em 2007, quando viemos residir no local, do que capim-braquiária, taquaras e algumas poucas arvoretas mirradas. Sobre este reflorestamento, falamos anteriormente, na postagem de 16 de setembro de 2016: http://orlandograeff.blogspot.com.br/2016/09/quesnelia-arvensis-bromelia-da-floresta.html . Bem, dentre essas “arvoretas mirradas”, havia algumas espécies interessantes, que ganharam viço, durante o trabalho de regeneração da floresta. Hyptidendron asperrimum (família Lamiaceae) era uma delas.

Trata-se de uma arvoreta característica das matinhas de encosta de altitude da Serra dos Órgãos, em sua vertente interiorana, onde predomina o clima estacionalmente seco de inverno. Ocorre em outras partes do Sudeste e até mesmo no Mato Grosso. Nos domínios das escarpas e vertentes voltadas ao Vale do Paraíba, costumam ocupar bases de paredões de pedra, ou florestas baixas dos topos de morros, onde os solos são fracos e muito drenados, situação mais ou menos do local onde estamos.

Hyptidendron asperrimum produz flores violeta, que surgem principalmente nesta época do ano – final de inverno a início de primavera. Junto com elas, vêm os pintassilgos (Carduelis magellanica), que são minúsculas joias cantarolantes, amarelo-ouro, matizadas de negro, que cantam maviosamente, enquanto forrageiam nessas flores, ocasionando lindo contraste.


É uma arvoreta baixa, de seus cinco metros, pouco mais, com tronco recoberto por espessa casca suberosa, como o são muitas árvores deste tipo de floresta. Por isso, presta-se razoavelmente bem para algumas bromélias, que foram afixadas nos troncos de alguns exemplares do Jardim Fitogeográfico. Plantas dos gêneros Vriesea, Aechmea e Quesnelia se deram bem neste tipo de suporte, embora exista risco de desplacamento ocasional, coisa usual em plantas de climas estacionais. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A ORQUÍDEA EPIDENDRUM XANTHINUM


Epidendrum xanthinum


No setor de ambientes abertos do Jardim Fitogeográfico ( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), onde estão as espécies de campos rupestres, restingas e campos de altitude, uma planta vem se adaptando esplendidamente, chegando a formar grande touceiras, que florescem todos os anos: a orquídea Epidendrum xanthinum. Ela floresce principalmente nesta época do ano – entre final de inverno e início de primavera, embora seja rara uma época em que não mostra ao menos algumas flores.

O nome epíteto xanthinum diz respeito à sua coloração predominantemente amarela, podendo apresentar tonalidades douradas, até um pouco alaranjada. Ela pertence a um grupo de orquídeas bastante complexo em sua taxonomia, o que advém de sua morfologia extremamente convergente: é a aliança de Epidendrum secundum, cuja espécie mais famosa, que tipifica este grupo, comum em cultivo e nas paisagens de margens de estradas, exibe coloração rosada.

São plantas de crescimento ereto, aparentemente monopodial (que cresce apenas num eixo), embora ramifique intensamente, de forma lateral, o que termina por originar densas touceiras. Como é comum no grupo, frutifica intensamente, liberando milhares de sementes, que voejam com o vento e acabam germinando em vários outros locais.

Epidendrum xanthinum no Jardim Fitogeográfico


Na natureza, habitam afloramentos rochosos, em diversas altitudes, mas quase sempre nas cercanias de fios d’água, que escorrem pelas rochas e ajudam a formar núcleos de umidade, sempre com luz farta. Crescem nas margens de estradas, tolerando até as condições de rodovias movimentadas, onde abunda a poluição e o vento forte ocasionado pelos veículos. Em Petrópolis, pode ser admirada nas rochas que margeiam a movimentada BR040, juntamente com E. secundum.

domingo, 18 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A BROMÉLIA NEOREGELIA CORREIA-ARAUJOI


Quando fazia jardins, na Década de 1990, era a época de ouro das bromélias, no paisagismo. Foi um verdadeiro “boom” de plantas trazidas da natureza, para lotar os jardins com bromélias, as mais variadas, vindas dos mais diversos locais. O mercado não se importava com a matéria conservacionista. Bem, talvez isso não tenha mudado muito, embora já se tenha hoje a plena consciência de que a coleta de plantas, nos ecossistemas, representa atividade danosa e até virou crime, passível de prisão.

Paralelamente, os horticultores trataram de produzir esplêndidas cultivares de bromélias, com belas características, que não encontram rivais na natureza. Essa, na verdade, foi a grande solução para o grave problema da coleta criminosa de plantas, uma vez que ninguém trocaria essas plantas bem produzidas e com formas à beira da perfeição, por outras vindas das matas, com folhas rasgadas, manchadas e cheias de pragas e doenças. Ainda mais se o preço for competitivo.
Numa postagem anterior, deste blog ( http://orlandograeff.blogspot.com.br/2013/01/e-se-todos-fizessem-isso-coleta-ou.html   ), tratei da complexa questão da coleta criminosa de plantas na natureza e creio que a questão foi bem definida. Naquela ocasião, citei o fato que, durante muitos anos, nas minhas expedições pelas florestas e demais ecossistemas brasileiros, cheguei a coletar plantas, com o estrito objetivo da descoberta científica e investigação. Nestas oportunidades, cuidava muito para coletar apenas partes de plantas (fragmentos de propagação vegetativa ou sementes), ou mesmo seedlings ou indivíduos redundantes, em populações que poderiam absorver este impacto necessário.

Felizmente, a ciência e o conhecimento sobre a flora avançaram muito, havendo excelentes listagens de espécies, para quase todos os ecossistemas, dispensando a necessidade de coletas. Mas, como seria de esperar, grande parte das plantas que trouxe da natureza ainda vivem na coleção de plantas do Jardim Fitogeográfico, tendo até deixado incontáveis descendentes, como é o caso da vistosa bromélia Neoregelia correia-araujoi, que já foi muito comum, na região da Costa Verde, litoral sul do estado do Rio de Janeiro. Essa bromélia era intensamente coletada, nas florestas de Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty, sendo empurrada às vias da extinção, embora venha se recuperando muito rapidamente, em função de ser planta bastante prolífica, no seu habitat natural.

Neoregelia correia-araujoi vive hoje em algumas árvores do Jardim Fitogeográfico, principalmente no setor da floresta recuperada. Mas, também se adapta bem aos muros de pedra, onde se imita uma de suas formas bastante comuns de ocorrência, na região de origem: os topos dos grande matacões de pedra granítica, quase à beira do mar. Velhos muros de ruínas do Século XIX, assim como telhados de algumas residências, em Angra dos Reis e Paraty, também abrigam belos indivíduos da bromélia que chamávamos de “finger-nail-plant”, no meio jardinocultural, por parecer com unhas pintadas com esmalte vermelho.


Esta bela bromélia, com porte relativamente avantajado, é uma planta tanque-dependente (guarda água no imbricamento de suas folhas), cujas flores alvas emergem diretamente do pequeno lago de vida e são intensamente buscadas por colibris e abelhas brasileiras. Seus pequenos frutinhos são bagas adocicadas, que os pássaros procuram avidamente, tratando de espalhar a planta, nas outras árvores. A espécie, aliás, tem cultivo muito fácil, bastando coletar suas sementes e plantá-las em vasos coletivos. Milhares de plantas saíram de semeaduras de nossa coleção, nos anos 2000, para abastecer cultivos comerciais, tendo assim colaborado para evitar a coleta.

bromélia Neoregelia correia-araujoi

sábado, 17 de setembro de 2016

O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE FOGO NAS ENCOSTAS – INCÊNDIOS CRIMINOSOS



Acima – labareda de mais de 60m, no incêndio florestal ocorrido na
RPPN Graziela Maciel Barroso – Condomínio Quinta do Lago – em 08 de setembro de 2008.
Compare o tamanho da residência, situada abaixo das chamas

Se você já leu o capítulo de nosso livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL (NAU Editora – 2015), em que tratamos do fogo nas vegetações, já deve estar mais do que por dentro deste assunto: O FOGO NA NATUREZA. Já deve saber que os incêndios florestais, no nosso país, salvo EXCEÇÕES, advêm das mãos humanas. Ou seja, toda a destruição que você verá, quando o fogo se alastra pelas matas e montanhas, aniquilando a fauna, a flora, solapando a fertilidade natural de nossos solos e, ainda por cima, em muitos casos, trazendo prejuízos materiais e fazendo vítimas, começa pela mão de um ser (des)humano.

Antes que alguém desvie o assunto, para se dedicar à inócua discussão sobre possíveis origens naturais dos incêndios florestais, atribuindo-os a pedaços de vidro, “combustão espontânea” ou mesmo raios, aqui no Brasil, deixemos uma coisa bastante clara: embora os dois primeiros sejam pura balela e os raios possam sim deflagrar incêndios na vegetação, isso representa EXCEÇÃO e, ao menos em nossa região de Floresta Atlântica, toma parte tão somente em dinâmicas de fragmentos, jamais chegando a ocasionar a escala de destruição verificada nos incêndios florestais da Cadeia Atlântica.

Tendo isso em mente, passemos a tratar deste assunto sério, que são os incêndios florestais, principalmente nas regiões da Serra do Mar, ou de forma mais ampla, na chamada Cadeia Atlântica, que é o imenso conjunto de serras montanhosas, que separa o Brasil Continental do Oceano Atlântico. Nossa intenção, através desta postagem, é mostrar os principais aspectos da propagação de incêndios florestais, nas montanhas, deixando para um próximo capítulo o conjunto de sugestões fundamentais para prevenção desta força destruidora, que é seguramente o principal agente destruidor de nossa biodiversidade.

Abaixo – O livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, de autoria de Orlando Graeff (2015),
onde o assunto FOGO é minuciosamente tratado



Acima – O autor consultando o capítulo sobre o FOGO, em seu livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL

CONDIÇÕES PARA INCÊNDIOS: A época mais frequente de ocorrência de incêndios florestais é no INVERNO SECO E FRIO típico do clima tropical, desta região do país. Isso costuma acontecer, geralmente, entre maio e setembro, quando a vegetação está seca e favorece a propagação do fogo. Em nosso livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL, explicamos que a condição ideal para a propagação do fogo florestal é a elevada relação carbono X nitrogênio da biomassa. Isso significa dizer que, quanto mais tarde ocorrer o fogo, maior será sua agressividade e sua capacidade destruidora, pois as plantas concentram maior quantidade de carbono, em seus tecidos, para resistir ao frio seco. Como se sabe, carbono é o principal combustível para o fogo. OS PIORES INCÊNDIOS OCORREM EM SETEMBRO, época em que convergem maiores temperaturas do ar; maior relação carbono X nitrogênio; e ventos fortes.

COMO SE INICIA: O fogo pode se iniciar no alto das montanhas, quando balões criminosos caem, ateando fogo à vegetação esparsa e geralmente campestre dos topos de morro. Porém, na maioria esmagadora dos casos, se inicia na BASE DOS MORROS, durante queima de lixo, ou simplesmente ateado por incendiários. Acredite ou não, a PIROMANIA (mania doentia de atear fogo) é muito comum e representa causa importante da deflagração de incêndios.

COMO SE PROPAGA: Nas ilustrações do texto, vemos uma representação esquemática da força que faz propagar o fogo, morro acima, na Região Serrana Fluminense. Em resumo, devemos ter em mente que o ar quente, gerado pelas chamas iniciais, retroalimenta o incêndio, quando faz surgir uma camada hiperaquecida de ar, junto ao solo, ocasionando sua ascensão rápida, morro acima. Esse VENTO DE AR QUENTE se assemelha às correntes ascendentes, que sobem as encostas, nas horas mais quentes do dia, ajudando praticantes de voo livre a subir, com suas asas-delta. O sopro cada vez mais rápido do ar quente desliza pela superfície da encosta, ganhando cada vez mais velocidade, na medida em que o fogo é oxigenado pelo ar, que vem pela retaguarda, puxado pelo próprio ar quente, que sobe acima.

A SEGUIR – Desenhos esquemáticos, que mostram a propagação de um incêndio florestal, numa região montanhosa da Região Serrana do Rio de Janeiro





Acima – O fogo se alastra nas encostas da RPPN Graziela Maciel Barroso, em Petrópolis, com as chamas se retroalimentando, rampa acima, pelo deslocamento do ar aquecido

Acima – Num nariz de encosta, as chamas assumem uma linha de avanço em V invertido, no qual a parte do vértice tem mais força, pela convergência dos “ventos de ar quente”

Acima – Encosta da RPPN Graziela Maciel Barroso, durante o incêndio de setembro de 2008, sendo possível notar a direção dos “ventos quentes” originados no fogo: seguem para sotavento da montanha, num sentido pouco usual, na localidade

Acima – Vertente completamente tomada pelas chamas, na RPPN Graziela Maciel Barroso, em setembro de 2008: essa floresta de encosta foi completamente destruída e não existe mais

 Acima – Uma vez atingindo o topo da Pedra do Pastor, na RPPN Graziela Maciel Barroso, as chamas passaram a descer pela encosta a sotavento. Observe que as chamas, morro abaixo, perdem força e queimam devagar (esquerda)

Abaixo – O helicóptero do Corpo de Bombeiros combate o fogo de setembro de 2008, na RPPN Graziela Maciel Barroso, permitindo a dura comparação com a porte do incêndio, praticamente incontrolável




Acima – No entardecer do dia 08 de setembro de 2008, moradora de casa situada na frente de propagação das chamas tenta combater uma frente de labaredas, que ascendia a encosta e viria a atravessar o aceiro, por conta dos ventos de ar quente. Note que a onda de calor é visível pela luz avermelhada, que reflete na floresta

É por essa razão que, durante incêndios florestais, na Região Serrana, você verá aquele vento forte, que parece surgir do nada, como se a natureza o tivesse mandado, exatamente para piorar as condições. Nas áreas planas do Centro-Oeste, plantações e pastagens são aniquiladas por vórtices de vento aquecido, em meio às chamas, que sobrem como tornados de fogo e lançam longe a palha incandescente, que vai atear mais focos, alhures. Aqui, em nossas montanhas íngremes, as encostas funcionam como “chaminés gigantes”, que canalizam esse ar quente e produzem LABAREDAS INCONTROLÁVEIS EM ALTA ENCOSTA. Quem já combateu incêndios florestais, em Petrópolis ou Região Serrana, sabe bem como se torna impraticável e extremamente arriscado fazer frente a essas chamas, que destruirão tudo à sua frente, até que terminem por queimar tudo.

Numa próxima postagem, falaremos mais um pouco sobre como se pode prevenir, ou minimizar o avanço das chamas, que destroem de forma endêmica nossa vegetação, causando erosão de solos, extinção da flora e da fauna e, ainda por cima, ocasionando prejuízos materiais, ou até vítimas. Desta presente postagem, deve restar a certeza das causas associadas ao homem e de como se propagam as chamas, em nossa região.

Abaixo - incêndio ocorrido novamente, na RPPN Graziela Maciel Barroso,                                      em 07 de setembro de 2016



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

QUESNELIA ARVENSIS – BROMÉLIA DA FLORESTA DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO

Primavera chegando! A estação das flores de 2016 está logo ali, daqui a poucos dias, mesmo que o Brasil não apresente aquela forte estacionalidade dos países temperados. Realmente, em termos gerais, dizem que o Brasil Tropical só mostra duas estações: inverno frio e seco; e verão quente e chuvoso. Mas, se você gosta de observar a natureza, notará sim diferenças substanciais entre cada estação do ano, coisa que a gente consegue ver bem, no Jardim Fitogeográfico.

a bromélia Quesnelia arvensis

Sobre o Jardim Fitogeográfico, creio que a maior parte dos leitores conhece bem sua história, que mostrei na postagem de de 16 de fevereiro de 2012 - http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html . Esta nossa reserva particular, situada em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, se divide em dois ambientes naturais e um controlado: são os ambientes que se referem aos ecossistemas abertos e ensolarados (restingas, campos rupestres etc.); e àqueles florestais, que ocupam área reflorestada a partir de 2007; além deles, uma estufa de plantas, onde são mantidas as espécies pouco tolerantes ao clima da Região Serrana.

Em nossa última postagem, mostramos a orquídea Cattleya intermedia, que é nativa do compartimento litorâneo do Brasil Sudeste e Sul. Agora, falamos da rústica e bela bromélia Quesnelia arvensis, que é nativa do Litoral do Sudeste, principalmente na floresta atlântica de baixada litorânea, adentrando também as restingas e as matas inundáveis do litoral. No Jardim Fitogeográfico, Quesnelia arvensis se encontra ambientada na floresta regenerativa (reflorestamento), ocupando seus trechos menos iluminados, que tolera muito bem e onde floresce continuamente, nesta época do ano.

Sobre nosso reflorestamento, cabem alguns comentários ligeiros. Ao chegarmos ao local, onde residimos e mantemos a coleção de plantas, ainda em 2007, encontramos terreno fortemente inclinado, aos fundos, onde pouco mais havia que denso capinzal e algumas arvoretas pontuais, aqui e ali. Antigas pastagens, abertas ainda nos tempos do Brasil Colônia (Séculos XVIII e XIX), quando por ali passava o Caminho das Minas Gerais, há muito se encontravam abandonadas, onde se estabeleceu o condomínio residencial, no qual se encontra o Jardim Fitogeográfico. Desde então, iniciamos o reflorestamento da área, visando a reconstituição da floresta nativa.

Evidentemente que foram plantadas diversas espécies de árvores nativas da Floresta Atlântica, além de ter sido iniciado o incentivo ao crescimento de outras espécies nativas, que habitavam a encosta, em estado de stand-by, em que eram mantidas pelo fogo endêmico de invernos secos e pela quase total ausência de fertilidade natural, consumida que fora, há mais de cem anos, para a produção de pastagens, que davam apoio às tropas de mulas, que passavam por Petrópolis, no caminho das minas de ouro do interior.

Abaixo - sequência de imagens de parte da floresta do Jardim Fitogeográfico, desde que foi iniciada sua recuperação, em 2007

agosto de 2007


 agosto de 2008

novembro de 2008

atualmente - setembro de 2016: ainda sem as folhas, depois do inverno seco e frio


A floresta recuperada do Jardim Fitogeográfica se liga a outro pequeno fragmento de reservas florestais do condomínio, na qual a flora é meramente residual, como o era a da área por nós cuidada. A partir da experiência contínua de cuidados, em nossa área particular, temos também envidado esforços graduais na revegetação da reserva florestal. Ambas representam corpo florestal isolado e relativamente distante das florestas da Reserva Particular do Patrimônio Natural Graziela Maciel Barroso, também pertencente ao nosso condomínio e na qual habitam espécies ameaçadas da flora, como a minúscula bromélia litofítica Tillandsia grazielae e o famoso rabo-de-galo (Worsleya procera), uma amarilidácea restrita à Serra da Maria Comprida.

Não se tratando de floresta primitiva (floresta primária) e sim de um novo fragmento regenerado artificialmente, essa área pôde abrigar grande parte das plantas da coleção de plantas do Jardim Fitogeográfico, muito em especial bromélias, orquídeas, aráceas e outros grupos nativos de florestas brasileiras, sem o perigo de mistura com os elementos nativos. Contudo, como sabemos bem que as espécies autóctones se veriam favorecidas pelas condições ecológicas da própria região de onde eram provenientes, ficamos satisfeitos em vê-las, desde sua reintrodução, a florescer e frutificar, espalhando-se novamente pelos ecossistemas próximos, dos quais haviam desaparecido, há coisa de dois séculos.


Adiante - outra sequência de imagens da floresta regenerada do Jardim Fitogeográfico, sendo possível observar sua evolução para ambiente menos iluminado. Com isso, muitos ambientes se modificaram, como continuarão a se alterar, ocasionando contínua adaptação das plantas da coleção

 agosto de 2007

 novembro de 2008

Abaixo - atualmente, em setembro de 2016, no final da estação seca e fria, mesmo assim, dando para observar a mudança gradual do mapa de sombras




Assim, nesta época do ano, alegramo-nos ao ver diversas espécies da Floresta Atlântica florescendo, na floresta recuperada do Jardim Fitogeográfico – entre elas, a bromélia Quesnelia arvensis, com suas inflorescências vistosas, que atraem beija-flores diversos. Essa planta abunda na Região da Costa Verde, entre Mangaratiba e Paraty, Litoral Sul Fluminense. É uma bromélia de folhas fortemente armadas de espinhos e que apresenta tanque de água, onde habitam inúmeras formas de vida, formando microcosmo complexo, no qual animais exóticos, como o famigerado mosquito Aedes aegypti não tem vez.


Quesnelia arvensis

terça-feira, 13 de setembro de 2016

PLANTAS DO JARDIM FITOGEOGRÁFICO – A ORQUÍDEA CATTLEYA INTERMEDIA

Tempo de voltar nossas atenções para outras coisas, que não a política, em nosso país. Afinal, há tanto mais a tratar, tanta coisa boa a celebrar. Pois então, vamos focar numa coisa que (quase) todos adoram: plantas tropicais, flores. Nesta série de postagens, o assunto passa a ser as plantas do Jardim Fitogeográfico, que abriga nossa coleção de espécies botânicas, em Itaipava, Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro.

Creio que quase todos conhecem a história do Jardim Fitogeográfico. Eu o chamava, há algum tempo, de Jardins do Templo Fitogeográfico. De um tempo para cá, resolvi suprimir o “templo”, por entender que, apesar de encarar meu jardim daquela mesma forma, como relatei na postagem de 16 de fevereiro de 2012 - (http://orlandograeff.blogspot.com.br/2012/02/as-origens-do-templo-fitogeografico.html), ou seja, quase como algo divino, até metafísico, não queria misturar as coisas. Religião é religião, cada um tem a sua, ou não tem. Então, vamos chamar a coleção de Jardim Fitogeográfico.

As razões para o FITOGEOGRÁFICO vocês já conhecem, pois referi longamente, naquela postagem: Fitogeografia é a área da ciência que sintetiza minha linha de estudos, tratando das vegetações na natureza. Ou seja, as plantas da coleção formam ambientes alusivos às tipologias de vegetação observadas no país, que eu tanto investigo e que resultaram no livro FITOGEOGRAFIA DO BRASIL – UMA ATUALIZAÇÃO DE BASES E CONCEITOS (NAU Editora, 2015), de minha autoria. Sobre esta obra, você poderá consultar em meu blog EXPEDIÇÕES FITOGEOGRÁFICAS, que é interligado a este.

Aqui no Jardim Fitogeográfico, as plantas da coleção interagem entre si e o meio, na forma de ambientes que imitam vegetações naturais. Tanto nas áreas abertas do Jardim, onde estão as plantas de locais ensolarados (restingas, campos rupestres etc.), quanto na floresta que foi recuperada, desde 2007, muita coisa interessante pude aprender com essas plantas, no tocante a suas ecologias e seus “hábitos” de crescimento e colonização dos ambientes. No meu livro, chamo isso de “desafio da horticultura” e isso me ajudou bastante, em minhas reflexões.

Cattleya intermedia em cultivo no Jardim Fitogeográfico

Muito bem, vamos então à primeira planta escolhida para a série, uma orquídea linda, que ocorre naturalmente (ou ao menos ocorria!), entre o norte do Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul: Cattleya intermedia. O grande naturalista Frederico Carlos Hoehne, que foi um dos pilares da orquidologia brasileira e viajou intensamente pelo Brasil, na primeira metade do Século XX, lançou importante olhar sobre as populações naturais de Cattleya intermedia, que se espalhavam em grande parte do litoral do Sudeste e Sul.

Cattleya intermedia crescendo sobre muro de pedra, 
no Jardim Fitogeográfico

Cattleya intermedia cresce principalmente de forma epifítica, ou seja, agarrada aos troncos de grandes árvores, ou formando touceiras quase suspensas por “ninhos” de raízes, nas arvoretas ramificadas e arredondadas das restingas litorâneas. Hoehne chamou atenção, em seu célebre livro Iconografia de Orquidáceas do Brasil, para largas populações desta orquídea, que habitavam diretamente a superfície dos matacões de rocha granítica, ao longo do litoral de Santa Catarina, destaque para a Ilha de Santa Catarina, onde está situada a cidade de Florianópolis. Suas fotos davam conta de imensas rochas roladas, com o topo recoberto de Cattleya intermedia. Quando floridas, essas plantas atraíam o olhar cobiçoso dos coletores, que trataram de depenar impiedosamente essas plantas, para vender a colecionadores, ou comerciantes de plantas.

Excursões pelo litoral catarinense ainda permitem a descoberta de esplêndidas populações naturais desta orquídea, principalmente sobre velhas figueiras, algumas protegidas em meio a terrenos alagadiços e impenetráveis. Poucas são as plantas divisadas sobre rochas e nenhuma população densa, como aquelas de Hoehne, pode ser mais encontrada.


Cattleya intermedia florescendo em seu habitat natural, 
na Lagoa dos Patos - Rio Grande do Sul, seu limite de ocorrência austral

No Jardim Fitogeográfico, Cattleya intermedia é mantida na forma de vasos pendentes, na estufa de plantas, e também de forma epifítica, modo com que ela mais se dá bem, por lhe ser possível espichar suas longas raízes, nos troncos e galhos de árvores situadas em locais protegidos do vento seco de inverno da Região Serrana.